O Globo, n 32.362, 15/03/2022. Mundo, p. 18

SINAIS DE OTIMISMO DÃO LUGAR A NEGOCIAÇÕES SEM AVANÇOS



QUARTA RODADA SERA RETOMADA HOJE

Após os dois lados sinalizarem haver avanços nas conversas, Rússia e Ucrânia encerraram ontem a quarta rodada oficial de negociações entre delegações dos dois países em busca de uma saída diplomática para o conflito sem que houvesse o anúncio de avanços significativos no encerramento. O negociador chefe da Ucrânia afirmou que as negociações devem continuar hoje.

“Foi feita uma pausa técnica nas negociações até amanhã. Para trabalho adicional nos subgrupos de trabalho e esclarecimento de definições individuais. As negociações continuam…“, disse Mykhailo Podolyak, conselheiro do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

GARANTIAS DE SEGURANÇA

Esta é a quarta rodada oficial de conversas entre as delegações, e a primeira realizada por videoconferência — as outras aconteceram em áreas próximas à fronteira da Bielorrússia com a Ucrânia. Além disso, na última quinta-feira aconteceu um encontro entre os chanceleres dos dois países, na Turquia, que também não levou a avanços imediatos.

Ambos os lados já deram indícios de que se falam com mais frequência do que anunciam em público, em conversas não divulgadas. Na sexta-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que as negociações têm acontecido “praticamente todos os dias”.

Russos e ucranianos emitiram mensagens otimistas antes desta rodada de negociações, e chegaram a sinalizar no domingo que poderiam chegar a um acordo nos próximos dias.

— A Rússia já está começando a falar de forma construtiva —disse Podolyak em um vídeo antes do encontro. — Acho que alcançaremos alguns resultados literalmente em questão de dias.

Zelensky disse ser necessário receber garantias de segurança em qualquer acordo.

— Temos que nos manter firmes e lutar para vencer, para alcançar a paz que os ucranianos merecem, uma paz honesta com garantias de segurança para nosso Estado, para nosso povo. E colocá-las por escrito nas negociações, negociações difíceis — disse Zelensky.

O Kremlin, por sua vez, disse ontem que, embora disponha de poderio militar para alcançar todos os seus objetivos na Ucrânia, evita empregar todo o seu poder de fogo de modo a evitar a morte de civis e destruição indiscriminada. Afirmou, ainda assim, que pode vir a controlar as principais cidades ucranianas.

— O Ministério da Defesa da Federação Russa, ao mesmo tempo em que garante a máxima segurança da população civil, não exclui a possibilidade de controlar os principais centros populacionais — disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

Ele afirmou que as alegações dos EUA e da União Europeia de que Putin estava desapontado com o progresso de sua campanha — chamada pelo Kremlin de “operação militar especial” — equivalia a uma provocação destinada a levar a Rússia a invadir cidades.

EUA ADVERTEM CHINA

Por sua vez, em encontro em Roma ontem com o responsável por política externa no Partido Comunista da China, Yang Jiechi, o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, deixou claro que “apoiará Rússia após a invasão da Ucrânia terá implicações para os relacionamentos da China em todo o mundo ”, inclusive com aliados dos EUA na Europa e na região do Pacífico, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price. De acordo com Price, Sullivan “levantou direta e claramente” suas “profundas” preocupações com o apoio de Pequim a Moscou. A China não se manifestou ainda sobre o teor do encontro.