O Globo, n 32.362, 15/03/2022. Mundo, p. 17
Pela primeira vez , civis saem em comboio de Mariupol
Corredor humanitário funciona após vários fracassos na cidade às margens do Mar de Azov, cercada pelos russos há 15 dias
Após vários anúncios de cessar-fogo parcial que acabaram fracassando desde o início da guerra, um corredor humanitário finalmente foi aberto para a retirada de civis de Mariupol, no Sudeste da Ucrânia ontem. Às margens do Mar de Azov, Mariupol está sitiada há 15 dias pelas forças russas, sem água nem energia, com escassez de comida e sob bombardeio intenso. Ontem, pela primeira vez civis conseguiram sair da cidade, em um comboio de 160 carros, segundo autoridades locais. De acordo com o Conselho Municipal, o comboio se dirigiu para a cidade de Zaporíjia, onde fica a principal central nuclear da Ucrânia, ocupada pelos russos desde a primeira semana da invasão.
A cidade portuária sofreu o pior impacto humanitário da guerra, com centenas de milhares de pessoas trancadas em porões sem comida, água ou energia elétrica.
Autoridades ucranianas locais dizem que até agora 2.500 civis morreram na cidade, um número que não pode ser confirmado de forma independente.
Obter passagem segura para que a ajuda chegue a Mariupol e a saída de civis foi uma das principais demandas de Kiev em várias rodadas de negociações. O Ministério da Defesa russo informou que Mariupol foi desbloqueada, sugerindo que novos corredores humanitários poderão ser abertos para a saída de civis da cidade.
RUSSOS FAZEM ACUSAÇÃO
Autoridades ucranianas também disseram ter estocado comida suficiente para duas semanas em Kiev, considerando a hipótese de as forças russas paradas nos arredores da capital desde a primeira semana da guerra finalmente lançarem sua ofensiva.
De acordo com o gabinete da vice-primeira-ministra ucraniana, Iryna Vereshchuk, dez corredores humanitários foram negociados para serem abertos ontem para a retirada de civis. Sete deles ficavam em Kiev e os outros três em Luhansk, no Leste.
De acordo com o serviço de imprensa da Câmara Municipal de Kharkiv, a segunda maior cidade ucraniana e a metrópole mais próxima da fronteira com a Rússia, 600 edifícios da cidade foram destruídos desde o início da guerra. Quem fez o anúncio foi o prefeito da cidade, Ihor Terekhov.
Já o Ministério da Defesa da Rússia disse que um míssil tático com munição de fragmentação disparado “por unidades nacionalistas ucranianas” deixou 20 civis mortos e outras 28 pessoas, incluindo crianças, feridas, em Donetsk, área controlada por forças separatistas pró-Rússia desde 2014.
“O uso de tais armas em uma cidade onde não há postos de tiro das Forças Armadas, ou seja, obviamente contra a população civil, é crime de guerra”, disse a nota do Ministério da Defesa russo.