O Globo, n 32.362, 15/03/2022. Mundo, p. 18

MULHERES TRANS DA UCRÂNIA TEMEM SER RECRUTADAS PARA LUTAR

Elisa Martins


Grupos de apoio a pessoas LGBT+ sugerem 'perda' da identidade com nome masculino para evitar constrangimento na fronteira

Há alguns dias, a cantora ucraniana Zi Faámelu publicou em suas redes sociais um vídeo no qual contava, chorando, que tinha conseguido deixar Kiev e pedia a ajuda de organizações internacionais para cruzar a fronteira. Ela citava um entrave adicional ao dos milhões de ucranianos em fuga: Zi Faámelu é uma mulher trans e, como muitas na Ucrânia, não conseguiu alterar o nome no documento de identificação, que permanece o de nascimento —masculino. Com isso, muitas mulheres trans são tratadas como homens e relatam medo e obstáculos ao tentar deixar o país.

—Hoje, estava cruzando uma fronteira dentro do meu próprio país e o guarda olhou minha cara e, depois de ver meu passaporte, disse: “Pode ir, mas saiba que não gostamos de pessoas como você” —disse ela.

Os medos expostos pela cantora vieram à tona com a determinação do governo ucraniano de que homens entre 18 e 60 anos estão proibidos de deixar o país.

A população trans ucraniana viu-se, então, em um limbo: mulheres com documentos com nome masculino barradas ou hostilizadas na fronteira com receio de serem convocadas a lutar, e homens com documento feminino igualmente indagados e sob ameaça.

À distância, grupos de apoio à população LGBT+ dão orientações para que o grupo consiga deixar a Ucrânia em segurança.

—Como o reconhecimento legal de gênero é um processo demorado na Ucrânia, mulheres trans que ainda têm em suas identidades seu “sexo de nascimento” são impedidas de cruzar a fronteira. Algumas conseguiram “perdendo" seus documentos de identificação, mas essa estratégia não se mostrou bem-sucedida em todos os casos e é arriscada — diz ao GLOBO Rémy Bonny, diretor da Forbidden Colours, que luta pela igualdade LGBT+ na Europa.

TRANSFOBIA

Essa “perda” de documentos foi, durante dias, a principal recomendação para mulheres trans que chegavam à fronteira com receio de serem proibidas de sair ou de serem recrutadas. Mas, com o fluxo acelerado de saída de ucranianos e o recrudescimento da guerra, os controles de fronteira se tornaram mais tensos e incertos.

—Muitos refugiados trans na fronteira foram mandados de volta pelos guardas de fronteira ucranianos por várias razões, mas no geral ousaria classificá-lo como transfobia. Mulheres trans com um M (masculino) em suas carteiras de identidade são informadas de que são homens e não podem deixar o país. Já os homens trans escutam: “Se você é um homem de verdade, você tem que ficar e lutar” —conta Bonny, que há três dias esteve na Polônia para discutir com organizações parceiras locais como ajudar refugiados LGBT+.

Há relatos de que os desafios continuam do outro lado da fronteira. Bonny lembra que, quando chegam a um dos países vizinhos, os refugiados LGBT+ têm que passar por um processo de identificação extenso, e países de acolhida como Polônia, Hungria e Romênia são considerados os Estados mais antiLGBT+ da UE:

—Há um medo geral entre as pessoas trans de permanecer na Ucrânia, mas também de cruzar as fronteiras para outro país anti-LGBT+. Recomendamos que eles tentem fugir da Ucrânia, claro, porque suas vidas estão em perigo, mas é muito compreensível que sintam muita ansiedade no momento.

Os relatos das principais organizações LGBT+ nas fronteiras da UE são de que a situação tem piorado a cada dia, conta Bonny. Isso inclui tempos de espera cada vez mais longos e hostilidade nas filas. E as acolhidas nem sempre são muito positivas para as pessoas LGBT+. Apesar do progresso dos últimos anos, lembra Bonny, a Ucrânia ainda é um país conservador.