Valor Econômico, v. 23. n. 5666, 11/01/2023, Opinião, A11
O sistema financeiro do futuro
C. Ragazzo e M. Tolentino


O ano de 2022 foi marcado pelo desenvolvimento de diversos projetos de CBDCs (sigla em inglês para moedas digitais dos bancos centrais) pelo mundo. Esse movimento ganha força, ainda, com as sucessivas crises observadas no ambiente cripto neste ano, ilustradas pelo colapso da stablecoin Terra/LUNA e, mais recentemente, pela falência da exchange FTX. 

No Brasil, os primeiros testes de uso da moeda oficial digital brasileira, o Real Digital, em ambiente controlado, começaram em 2022. Para 2023 é esperado o lançamento de um piloto, com o lançamento oficial previsto para 2024, segundo o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. O desenvolvimento do Real Digital coloca o Brasil dentro de um movimento global de construção do sistema financeiro do futuro: digitalizado, tecnologicamente sofisticado e mantendo os bancos centrais no coração do sistema. 

O fenômeno da digitalização vem alterando a dinâmica das interações econômicas. Hoje, todos buscam cada vez mais rapidez e agilidade nos serviços e, no âmbito do sistema financeiro, isso está associado à implementação de inovações técnicas capazes de melhorar a integração entre sistemas e viabilizar a programação de transações automáticas, reduzindo custos e aprimorando sua eficiência. 

O desenvolvimento do Real Digital, com estreia oficial prevista para 2024 coloca o Brasil dentro de um movimento global de construção do sistema financeiro do futuro: digitalizado, tecnologicamente sofisticado e com os Bancos Centrais no coração do sistema 

O desenvolvimento de aplicações inovadoras com essas características tem sido associado a tecnologias como blockchain e contratos inteligentes, que hoje são amplamente utilizadas para operações com criptoativos. Ou seja, operam em ecossistemas de alto risco, uma vez que estão sujeitas a pouca ou nenhuma regulamentação, sem o respaldo institucional de uma autoridade legal e sem padrões mínimos de integridade de mercado. O recente debacle da FTX é ilustrativo. 

Para aproveitar os benefícios que as tecnologias podem oferecer e ao mesmo tempo reduzir a exposição aos riscos de um ambiente desregulamentado, uma solução que vem sendo experimentada e merece destaque é a incorporação das principais tecnologias disruptivas pelo sistema financeiro tradicional. O uso de redes blockchain e contratos inteligentes dentro de um ambiente institucionalmente seguro, operando com moedas oficiais em suas versões digitais, as CBDCs, pode trazer maior eficiência ao setor e, ao mesmo tempo, desfrutar de mecanismos de gerenciamento de riscos já testados. 

Isso significa que autoridades internacionais compreendem que o sistema financeiro do futuro deve ser capaz de compatibilizar estabilidade financeira com o uso de alta tecnologia digital. Por isso, os bancos centrais precisam acompanhar o processo de digitalização e se tornarem promotores desse sistema tecnologicamente sofisticado, assegurando sua centralidade nos sistemas financeiros do futuro. 

Uma das apostas do Banco de Compensações Internacionais (BIS) para o futuro do sistema financeiro é a ideia de internalizar tecnologias de destaque do universo cripto no sistema tradicional de modo a entregar inovações em programabilidade e interoperabilidade, principalmente a nível internacional, enquanto mantém a estabilidade oferecida por um sistema com um banco central como pilar. 

Na visão da organização, apresentada em seu relatório anual de 2022, essa tendência é de suma importância devido à necessidade de os bancos centrais resguardarem a segurança da moeda e garantirem a integridade do sistema e das transações. Apesar desse caminho desagradar os mais entusiastas da proposta de descentralização que o universo cripto promete, tal visão é sustentada pela experiência histórica que mostra que, no caso da emissão de moeda, a centralização é não só desejável, como mais eficiente. 

Justamente por isso, um dos principais movimentos das autoridades na direção desse sistema do futuro é a emissão de CBDCs em rede. Como emissor da moeda oficial usada nesses ambientes altamente tecnológicos e digitalizados, a ideia é que o banco central mantenha o seu papel na busca pela estabilidade financeira por meio da sua atuação como regulador e gestor da política monetária. Por isso, diversos projetos têm sido explorados para o desenvolvimento de CBDCs interoperáveis. Se, até aqui, havia muito debate sobre os casos de uso de CBDCs, elas parecem estar ganhando destaque como instrumento central na estratégia de absorção de tecnologias do universo dos criptoativos pelo sistema tradicional. 

Apesar de tudo estar em estágios iniciais, o BIS já apoia e participa de diversas iniciativas para o desenvolvimento de modelos de pagamentos internacionais usando CBDCs. O foco em pagamentos internacionais tem a ver com o diagnóstico de que essas transações são uma das principais dores do sistema atual. Assim, elas poderiam ter ganhos de eficiência com o desenvolvimento de uma moeda digital própria construída para ter interoperabilidade entre países devido ao uso de blockchain e contratos inteligentes. 

Nesse sentido, destaca-se o Projeto MAS, que envolve os Bancos Centrais da França e Cingapura. Ele consiste em um ambiente teste de liquidação de transações internacionais usando CBDCs em transações diretas entre bancos comerciais na rede por meio de contratos inteligentes. Há, ainda, projetos similares envolvendo Cingapura e Canadá; China, Hong Kong, Emirados Árabes e Tailândia; Cingapura, Austrália, Malásia e África do Sul; e, mais recentemente, foi anunciado o projeto Icebreaker, entre Suécia, Noruega e Israel, com os mesmos objetivos. 

Para além do potencial de melhorar a eficiência dos sistemas de pagamentos, as CBDCs podem viabilizar toda uma gama de novos serviços e outras soluções financeiras em rede, permitindo interação com diversas tecnologias inovadoras. Esse é o foco do projeto do Real Digital, a CBDC brasileira, cujos testes começaram em setembro de 2022. O projeto mira, dentre outras coisas, soluções para integração do Real Digital com tecnologias de Finanças Descentralizadas (DeFi) e com a Internet das Coisas (IoT), explorando o uso de contratos inteligentes em redes blockchain para viabilizar o uso do dinheiro programável. 

A visão do BIS para o futuro do sistema financeiro está sendo colocada em teste por diversos países e seus respectivos reguladores, podendo se tornar uma forte tendência para o futuro do mercado. O sucesso dos pilotos iniciados será fundamental para definir os contornos do sistema financeiro do futuro.