Valor Econômico, v. 23. n. 5666, 11/01/2023, Brasil, A4
Balança deve ter ano de saldo estável, com queda dos negócios
Marta Watanabe 

 

Mesmo com exportações ou importações abaixo das marcas recordes de 2022, como aponta a maior parte dos cenários traçados por economistas, a balança comercial promete para 2023 um superávit robusto que, para alguns, pode até ser maior do que o de 2022, quando o saldo de US$ 62,3 bilhões bateu recorde histórico, em clara contribuição positiva para o balanço de pagamentos. Projeções de 12 consultorias e instituições financeiras consultadas pelo Valor apontam para saldo positivo que varia de US$ 49 bilhões a US$ 71,9 bilhões em 2023, considerando a metodologia de cálculo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). A mediana está em US$ 60 bilhões. 

Na ponta das projeções mais otimistas está a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), com exportações para 2023 projetadas em US$ 325,16 bilhões e importações de US$ 253,23 bilhões. Apesar de estimar expansão do superávit comercial para nível acima de US$ 70 bilhões, o que seria novo recorde, José Augusto de Castro, presidente da AEB, afirma que o resultado, se alcançado, será obtido sem gerar atividade econômica para o país. 

Isso porque o saldo resultaria de queda tanto na exportação quanto na importação. O superávit aumentaria porque o ritmo de queda da exportação, calculado em 2,9% em 2023 contra o realizado em 2022, seriar menor que o da importação, de 7,1%, na mesma comparação. 

As exportações, diz Castro, enfrentarão um ajuste e acomodação de preços e por isso não devem mais proporcionar os picos de valor embarcado vistos no decorrer de 2021 e em 2022. Em dificuldade na economia doméstica, a China deve se manter com a economia mais desacelerada neste ano, com possível impacto na demanda mundial, enquanto Estados Unidos e União Europeia, com as recentes elevações das taxas de juros, correm risco de redução de atividade e até mesmo de recessão. 

Para Mirella Hirakawa, economista da AZ Quest, preços de commodities importantes para a pauta de exportação brasileira devem ter queda. O preço médio de soja, exemplifica, item mais exportado no ano passado, deve cair 7% ao longo de 2023, e o de minério de ferro, 13%, segundo projeções da gestora. 

Como não há no cenário-base novos choques que possam manter cotações mais altas de commodities importantes para os embarques brasileiros, a expectativa, segundo a economista, é de redução de preços. “O superávit comercial dificilmente volta a patamares próximos de US$ 60 bilhões em 2023 e deve ficar entre US$ 50 bilhões e US$ 55 bilhões neste ano.” 

Em termos de volume, avalia, o afrouxamento da política de covid-19 zero da China pode permitir uma retomada de atividade no país asiático e impulsionar os embarques brasileiros. O efeito líquido entre preços e volumes, porém, deve levar a uma queda no valor exportado neste ano. As importações, diz ela, devem “andar de lado”, acompanhando a fraqueza da atividade doméstica, como reação à política monetária do Banco Central. 

Para Hirakawa, o valor desembarcado em 2023 deve ficar mais perto da estabilidade, e não de queda, em relação ao ano passado porque haverá consumo de itens relacionados a ramos com descompasso entre oferta e demanda, com gargalos que estão se normalizando, mas não de forma linear, num processo que terá continuidade ainda neste ano. 

A economista lembra que a atividade doméstica, assim como a balança comercial, ficou desde 2021 sob efeitos de choques resultantes primeiramente da pandemia da covid-19 e, no ano passado, pela guerra entre Rússia e Ucrânia. A AZ Quest projeta queda de 0,2% no PIB deste ano após crescimento de 3% esperada para 2022. 

Mais otimista em relação às exportações, Sergio Vale, economista-chefe e sócio da MB Associados, avalia que as commodities metálicas, como o minério de ferro, já devolveram a maior parte da alta de preços observada em 2021 e que neste ano deve haver mais um processo de acomodação. 

Ao mesmo tempo, medidas do governo chinês para a recuperação de sua economia doméstica devem passar pelo mercado da construção, diz, e impulsionar volumes de exportação do minério de ferro. 

O economista da MB também destaca a expectativa atual de safra recorde de grãos neste ano, o que deve beneficiar o embarque de commodities agrícolas que deverão ser beneficiadas com combinação favorável de volume, preços e câmbio. 

O conjunto pode propiciar até algum aumento de exportações em 2023 em relação ao ano passado, diz Vale, apesar de um cenário de desaceleração global à frente. O economista projeta superávit de US$ 65,4 bilhões, o que também seria um novo recorde na série histórica do Mdic. 

A estimativa inclui queda nas importações, que devem ser afetadas pela desaceleração da demanda doméstica aliada a pressões menores da importação de combustíveis, em razão da esperada redução das cotações de petróleo. 

Rafaela Vitória, economista chefe do Banco Inter, projeta para 2023 preço médio do barril de petróleo perto dos US$ 90, abaixo da média de US$ 98 do ano passado, o que deve contribuir para aliviar o valor das importações de gasolina e diesel. Ainda dentro dos itens de energia, a importação de gás também pode cair não somente em razão de preços como também de volume. 

Nos primeiros meses do ano passado, lembra, houve forte importação de gás, ainda sob impacto da crise hídrica, que teve ponto mais crítico em 2021 e levou ao acionamento maior das termelétricas. Para 2023, o cenário é inverso, com previsão de menor demanda para essa fonte de energia, o que também pode ajudar a aliviar a pressão nas compras externas de gás. 

Os adubos e fertilizantes também devem pressionar menos. No decorrer de 2022, diz ela, esses itens subiram de preço em razão da guerra entre Rússia e Ucrânia e isso já começou a ser devolvido, aponta. Além disso, a corrida pela importação desses itens, do qual o Brasil é dependente, diz ela, também inflou os volumes desembarcados, o que deve sofrer ajuste agora. Essas descompressões devem ajudar a reduzir as importações a US$ 260 bilhões em 2023.

Com exportações em US$ 320 bilhões que, entre outros fatores pode ser favorecido por alguma recomposição de valores embarcados para a China, estima, a balança pode chegar a superávit comercial de US$ 60 bilhões neste ano, número comparável aos de 2021 e do ano passado. 

Na ponta menos otimista, Livio Ribeiro, sócio e economista da consultoria BRCG projeta um superávit comercial bem menor, perto de US$ 49 bilhões, mas que ainda deve ser importante para a composição do balanço de pagamentos, ressalta. Para dar uma dimensão da importância do comércio internacional na economia, ele destaca que o setor externo deve terminar 2022 com contribuição positiva estimada por ele entre 0,6 a 0,7 ponto percentual para um PIB que deve avançar 3,2%. Em 2023, diz, ainda haverá ajuda do setor externo, com contribuição calculada em 0,3 ponto percentual. Trata-se de metade da taxa esperada para 2022, mas relevante para um PIB que, ainda pela suas estimativas, deve crescer 0,5% este ano. 

Na balança comercial calculada pela Sexec, Ribeiro estima exportações de US$ 305 bilhões e importações de US$ 256,2 bilhões, o que representa queda de 8,8% nas exportações e de 5,9% nas importações em relação ao ano passado. 

A queda projetada nos desembarques, diz Ribeiro, seria mais próxima de 8% e mais parecida com a taxa de redução das exportações se não houvesse a perspectiva de importação de vacinas. O economista calcula que a compra externa de vacinas some US$ 5 bilhões, o que deve tirar cerca de dois pontos percentuais na queda esperada para as importações brasileiras em 2023, contra o ano passado. 

A perspectiva de exportação menor, diz ele, considera uma retomada bem menos vigorosa para o quadro de desaceleração econômica da China. Mesmo com o fim da política de covid zero, diz ele, o cenário que se tem é que as ondas de covid ainda devam impactar o mercado doméstico. Mesmo após acalmada a crise sanitária, diz ele, a população chinesa não deverá ter a poupança acumulada que propiciou vários países do Ocidente a “rachar de crescer”. “Difícil ver um cenário em que os chineses vão para a rua consumir loucamente.” 

Isso, diz, pode impactar a maior aceleração da economia chinesa e afetar o crescimento da exportação de proteínas e também de soja, que serve como ração para os animais. Para Ribeiro, uma retomada maior de exportações para os chineses em 2023 estaria mais concentrada em minério de ferro, também ajudada pela base mais baixa de comparação. Outro item que pode ajudar, aponta, é o milho, item que pode representar abertura de mercado.