Valor Econômico, v. 23. n. 5666, 11/01/2023, Finanças, C3
Campos destaca inércia para justificar estouro da meta
Estevão Taiar e Larissa Garcia, Valor 


A inércia do ano anterior, que mede o quanto a inflação passada afeta os preços correntes, foi o principal motivo apresentado pelo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, para o descumprimento da meta oficial pelo segundo ano seguido. Em carta aberta, endereçada ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e divulgada nesta terça-feira para se justificar, ele reiterou que as últimas projeções do BC apontam para novo estouro do teto em 2023. 

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) terminou 2022 em 5,79%, acima da meta de 3,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais e para menos. Para que não precisasse se justificar, o indicador deveria ficar em, no máximo, 5%. 

Em 2021, por sua vez, a inflação acumulou alta de 10,06%, e, segundo carta aberta divulgada ontem, afetou tanto os preços livres quanto os administrados no ano passado. “No caso dos preços livres, a inflação passada significa pressão corrente de custos, advinda tanto de outros preços de bens e serviços utilizados como insumos, quanto de mecanismos inerciais informais de indexação salarial. Por exemplo, os reajustes nas negociações salariais tenderam a acompanhar o movimento da inflação passada, embora com variações inferiores à inflação em boa parte do ano”, argumentou o documento. 

Nos preços administrados, o BC destacou “arranjos institucionais” que vinculam o reajuste dos preços à inflação passada, como planos de saúde e medicamentos. “Ressalta-se ainda que houve aumento da inflação ao longo da maior parte de 2021, o que potencializou o efeito inercial sobre o ano seguinte.” 

Além disso, Campos citou outros fatores, como a elevação dos preços de commodities, em especial do petróleo após a guerra da Ucrânia, desequilíbrios entre demanda e oferta de insumos e gargalos nas cadeias produtivas globais, além de choques climáticos, que afetaram alimentos, e a retomada do setor de serviços e do emprego, “impulsionada pelo acentuado declínio da quantidade de casos de covid-19 e consequente aumento da mobilidade”. 

A autoridade monetária salientou que serviços é o grupo que apresenta a maior sensibilidade em relação à inflação passada e que o mercado de trabalho “apresentou resultados robustos em 2022”. 

Por outro lado, o texto frisou que “vários fatores agiram no sentido contrário”, contribuindo para diminuir o desvio em relação à meta, como a redução na tributação sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicações; a bandeira de energia elétrica; a apreciação cambial; e o hiato do produto, que mede a ociosidade da economia, negativo. 

“Nesse sentido, ressalta-se o papel do aperto da política monetária para a contenção da inflação. A política monetária, que, em 2021 já havia passado do estímulo extraordinariamente elevado para o território contracionista, avançou substancialmente no terreno contracionista em 2022”, disse. 

BC publicou a decomposição da inflação do ano passado, que desviou 2,29 pontos percentuais do centro da meta. A inércia respondeu por 2,74 pontos, “demais fatores”, que incluem diversos tipos de choques, contribuiu com 2,22, expectativas, com 1,02, e inflação importada (commodities e câmbio), com 0,11. Já o hiato do produto teve contribuição negativa de 0,45 ponto, a bandeira de energia, de 1,02, e medidas tributárias, de 2,33. 

Pelo sistema atual, implementado em 1999, as metas são definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em junho para três anos-calendários à frente. Quando a inflação não fica dentro do intervalo determinado, o presidente do BC precisa escrever a carta de justificativa ao presidente do conselho, que atualmente é o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, além de detalhar seu plano para que os preços voltem a ter estabilidade. 

Na carta, Campos afirmou que a autoridade monetária tem definido a taxa básica de juros, e “continuará a fazê-lo”, para cumprir as metas. “O BC tem tomado as devidas providências para que a inflação atinja as metas para a inflação estabelecidas pelo CMN, de 3,25% para 2023 e de 3,00% para 2024 e 2025”, disse. 

O documento reiterou as projeções da autoridade monetária para a inflação apresentadas no último Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que apontam para novo estouro do teto da meta neste ano “em virtude principalmente da hipótese do retorno da tributação federal sobre combustíveis neste ano e dos efeitos inerciais da inflação de 2022”. 

“Esses efeitos são contrabalançados pela política monetária, embora não de forma integral, em virtude das diferenças temporais entre os impactos dos choques, de prazo mais curto, e os efeitos da política monetária, mais concentrados no médio prazo”, ponderou o texto. O documento também chamou atenção para a taxa de juros real, que permanece em 7,8% no primeiro trimestre de 2023 e deve atingir 6,9% ao final de 2023, 5,2% em 2024 e 4,7% em 2025. “Nessa métrica, o aumento da taxa de juros real ex-ante neste ciclo é o maior ocorrido durante o regime de metas para a inflação”, diz. 

O BC espera inflação de 5% em 2023, de 3% em 2024 e 2,8% em 2025. “As projeções condicionais do BC são de que a inflação acumulada em quatro trimestres prossiga a trajetória de queda ao longo de 2023, terminando o ano em patamar inferior ao de 2022.” 

A carta reforçou que o Comitê de Política Monetária (Copom) tem dado ênfase ao horizonte de seis trimestres à frente e não no ano-calendário, para tentar suavizar efeitos dos cortes de impostos em combustíveis e outros itens promovidos pelo governo no ano passado. Dessa forma, atualmente o colegiado mira no segundo trimestre de 2024, que tem projeção de 3,3%. 

As simulações usadas no documento, contudo, não consideram a prorrogação da redução de impostos anunciada na semana passada. O BC reiterou que se manterá vigilante e avaliando se a estratégia de manter a Selic em 13,75% por período “suficientemente prolongado” levará a inflação para a meta.