O Globo, n 32.363, 16/03/2022. Mundo, p. 18
Incapaz de dominar cidades, Rússia mira infraestrutura
Edifícios residenciais em Kiev são atingidos pelo segundo dia consecutivo
Ataques aéreos russos mataram ao menos quatro pessoas ontem em uma área civil de Kiev, disseram autoridades da Ucrânia, ao mesmo tempo em que as forças invasoras russas dão prioridade a alvos de infraestrutura e da capacidade industrial ucranianas frente às dificuldades de conquistar cidades.
As mortes aconteceram quando bombas russas atingiram dois arranha-céus no distrito de Sviatoshynskyi, área urbana na parte oeste da capital ucraniana. Como resultado do bombardeio, um incêndio atingiu um edifício residencial, consumindo todos os seus 16 andares. Além dos mortos, bombeiros registraram cinco feridos e 48 resgatados.
“O mundo inteiro deve saber e ver o que está acontecendo na Ucrânia. Como a Rússia tenta destruir nosso Estado, nossas cidades, como está matando ucranianos. Este é um prédio no distrito de Sviatoshynskyi da capital. Mais precisamente, o que restou dele depois que o projétil atingiu”, escreveu o prefeito Vitaliy Klitschko em rede social.
Klitschko anunciou um toque de recolher de 36 horas na capital ucraniana a partir de ontem à noite .“Hojeé um dia difícil e perigoso”, afirmou o prefeito em um comunicado, no qual explica que a circulação na cidade seria proibida a partir das 20h locais. As pessoas poderão se deslocar apenas para ir para abrigos.
CAPACIDADE INDUSTRIAL
Durante a manhã, bombas russas danificaram outro prédio residencial de nove andares no distrito de Podilskyi, uma zona de produção industrial, causando um incêndio que se espalhou do térreo ao quinto andar e deixando um ferido. Houve registros ainda de ataques que atingiram uma casa e uma estação de metrô.
Uma fábrica de armas no centro de Kiev também foi atingida, com imagens feitas por um morador local mostrando fumaça saindo do telhado. Do lado de fora dos quiosques próximos, lojistas e ajudantes varreram vidros e outros destroços do impacto das explosões.
A Rússia disse na segunda-feira que planeja atacar fábricas de armas em retaliação ao que disse ser um ataque ucraniano na cidade de Donetsk, controlada por separatistas pró-Moscou, e pediu aos civis que fiquem longe. Segundo a Rússia, esse ataque matou mais de 20 civis. A atual estratégia russa, após sua ofensiva encontrar dificuldades, parece mirar sobretudo a infraestrutura e a capacidade de produção industrial militar ucranianas.
“O Kremlin provavelmente agora sabe que não tomará a Ucrânia, então eles querem prejudicar sua economia e indústrias o máximo possível”, afirmou Konrad Muzyka, da consultoria de defesa polonesa Rochan.
Ontem, o aeroporto da cidade de Dnipro, a sudeste da capital, sofreu uma “enorme destruição” após dois bombardeios russos na madrugada. O governador da região, Valentin Reznichenko, afirmou que, “durante a noite, o inimigo atacou o aeroporto de Dnipro. Dois ataques. A pista foi destruída. O terminal está muito danificado”.
Dnipro, uma cidade industrial de um milhão de habitantes por onde passa o Rio Dniéper, que separa o Leste, próximo à Rússia, do restante de seu território, escapou relativamente intacta do início do avanço do Exército russo. No sábado passado, no entanto, foi alvo de bombardeios que provocaram pelo menos uma morte. Outros aeroportos como o de Antonov, ao norte de Kiev, foi atacado.
Autoridades disseram que 4 mil veículos, transportando o equivalente a 20 mil pessoas, conseguiram escapar ontem de Mariupol, no Sudeste. A quantidade marcou um aumento significativo em relação à segunda, quando cerca de 150 carros deixaram a cidade, cercada por forças russas.
“Dos 4 mil carros que saíram da cidade, 570 já chegaram a Zaporíjia”, a cerca de 230 km a noroeste, disse Kirilo Timoshenko, chefe-adjunto da administração presidencial da Ucrânia.
Em Mykolaiv, sob ataque russo, a maternidade da cidade abriga sete mulheres grávidas prestes a dar à luz.