O Globo, n 32.363, 16/03/2022. Economia, p. 16

Rússia corre risco de entrar em calote hoje



Pais precisa pagar US$ 117 milhões em juros de título da dívida externa, mas não pode fazer isso em rublos. Moscou tem US$ 630 bilhões em reservas internacionais, mas metade dos recursos está bloqueada

A Rússia deve dar um calote em sua dívida externa hoje. Mesmo contando com US$ 630 bilhões em reservas internacionais, o país é alvo de sanções pela invasão da Ucrânia e não consegue ter acesso à metade deste valor.

No início deste mês, as agências de classificação de risco cortaram a nota de crédito da Rússia para ou lixo, o que já apontava um elevado risco de calote.


O país precisa pagar US$ 117 milhões em juros de um título emitido em dólar, que tem vencimento hoje. Se não honrar o pagamento, será a primeira vez que a Rússia entra em calote externo desde a Revolução de 1917, quando os bolcheviques não reconheceram a dívida do período czarista, segundo reportagem da CNN Business.

Nem mesmo na crise das dívidas dos anos 1990, quando a economia do país foi a colapso em 1998, o país entrou em moratória externa. Na época, o calote foi só em sua dívida interna.

O que é mais intrigante nessa situação é que a Rússia tem o dinheiro, mas não pode acessá-lo. Desde 2014, a última vez que Estados Unidos e aliados impuseram sanções ao país devido à anexação da Crimeia, o Kremlin acumulou mais de US$ 600 bilhões em reservas estrangeiras, agora parcialmente bloqueadas.

Além disso, o presidente Vladimir Putin proibiu qualquer pagamento, inclusive para credores externos, em outra moeda que não rublo, como parte do esforço de seu regime para fortalecer a moeda russa diante das sanções impostas pelo Ocidente.

PAGAMENTO EM RUBLOS

No último domingo, o ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, afirmou que o governo pagará os credores de “países hostis” em rublos até que as sanções sejam suspensas.

Na segunda-feira, o Ministério das Finanças da Rússia emitiu uma ordem para pagar os US$ 117 milhões, embora não tenha especificado a moeda. O uso de rublos, no entanto, não é uma opção para os cupons (termo usado para juros da dívida) desta semana. Portanto, mesmo que o país tente pagar a dívida em outra moeda, isso será entendido como calote.

“O pagamento em moeda local russa do título que vence em 16 de março poderia, se ocorrer, constituir um calote após expirar o prazo de tolerância de 30 dias”, disse a Fitch. A agência de classificação de risco já avaliava, na última semana, quando reduziu a nota de crédito da Rússia para “C”, que o calote do país era iminente.

Na última divulgação da Fitch, a agência destacou ainda o “fracasso em pagar investidores estrangeiros” com títulos de empréstimos federais com cupom emitidos pelo governo russo em rublos.

Se a Rússia não cumprir suas obrigações, tecnicamente, há um período de tolerância de 30 dias para que o país seja considerado oficialmente inadimplente. Mas há efeitos mais imediatos.

Do ponto de vista das finanças internacionais, o calote não deve ter um impacto devastador. A Rússia tem um valor pequeno de sua dívida nas mãos de credores externos, cerca de US$ 60 bilhões. Mesmo que deixasse de pagar todos eles, o calote teria, em princípio, efeito limitado pra o mercado global.

Analistas do Capital Economics alertam, porém, que, se uma instituição financeira estiver muito exposta, há risco de contágio, com implicações ainda não dimensionadas.

RETRAÇÃO NO PIB

Internamente, o país já caminha para um colapso econômico de iguais proporções ou ainda maior que o experimentado na crise de 1998, após o calote da dívida. Houve um êxodo de multinacionais da Rússia, de IBM a McDonald’s, passando por marcas de luxo como Hermès e Chanel.

Economistas do JPMorgan disseram a clientes, em relatório divulgado na semana passada, estimar que a Rússia irá registrar uma contração de 7% no Produto Interno Bruto (PIB) este ano. É a mesma magnitude prevista pelo Goldman Sachs.

Um calote poderia levar a uma fuga dos poucos investidores estrangeiros que ainda restam no país e isolar ainda mais a economia russa, já em ruínas.

No sábado, o Banco Central da Rússia informou que a Bolsa de Moscou continuará fechada pelo menos até o próximo dia 18. As negociações estão suspensas desde 25 de fevereiro, o dia seguinte à invasão da Ucrânia.