Valor Econômico, v. 23. n. 5667, 12/01/2023, Política, A8
Em Brasília, Lira volta a articular reeleição ao comando da Câmara
Marcelo Ribeiro e Raphael Di Cunto 

 

Favoritíssimo na disputa pela presidência da Câmara, o deputado Arthur Lira (PP-AL) desembarcou domingo em Brasília e passará as próximas semanas na capital federal para fechar as negociações em torno de sua reeleição e dos postos estratégicos na Casa. Ele tenta conciliar os interesses de todos os partidos de modo a evitar que insatisfações internas façam nascer um adversário. Hoje, fora o Psol, nenhum partido cogita lançar candidato. 

Após participar da posse presidencial em 1º de janeiro, Lira retornou a Alagoas para alguns dias de descanso, mas, segundo aliados, decidiu antecipar sua volta para evitar ruídos entre os partidos. A viagem já estava marcada quando bolsonaristas radicais invadiram o prédio do Congresso e dos demais Poderes e mudaram a pauta da semana. 

Superado o momento mais agudo desta crise, ele focou suas atenções à candidatura e não deve mais voltar a Alagoas antes de 1º de fevereiro. Ficará direto em Brasília para conversar com os deputados e deve realizar viagens pontuais para os Estados com o objetivo de se apresentar para os novos eleitos, mas o ritmo é muito diferente da campanha de dois anos atrás, quando alugou jatinho, montou uma coordenação de campanha com dezenas de deputados e fazia voos diários para pedir votos. 

Desta vez, o clima está tão calmo que a maioria dos deputados está em viagem com suas famílias, mesmo com a eleição daqui a duas semanas. Mesmo assim, Lira reuniu-se anteontem com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e dois expoentes do PT na Câmara, os deputados Odair Cunha (MG) e Zeca Dirceu (PR), que liderarão o partido na próxima legislatura. Ele tenta convencer os petistas a participarem de um único bloco para a disputa das posições na Mesa Diretora e comissões. 

Sem um adversário com chances reais, Lira deve ser reeleito à presidência da Câmara no dia 1º de fevereiro com apoio dos partidos alinhados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como PT e PSB, das siglas de “centro” (PP, PSD, Republicanos e MDB) e da oposição, caso do PL do ex-presidente Jair Bolsonaro. O entrave é a disputa pelos demais cargos. 

O PT não aceita que o PL comande a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais importante da Câmara, e fique com a vice-presidência da Casa, o que permitiria conduzir as sessões de plenário na ausência de Lira. O presidente da Câmara está defendendo um rodízio entre PL, PT, União Brasil e MDB na CCJ, mas já prometeu a vice-presidência ao PL em troca do apoio dos 99 deputados da sigla e não pretende mudar de ideia. 

Os petistas querem isolar o PL num bloco minoritário e montar seu próprio bloco para ocupar os cargos de comando, deixando os aliados do governo com a CCJ e a primeira-vice-presidência. Eles acenam com a possibilidade de ceder a vaga ao União Brasil ou Republicanos em troca de votos. Já Lira pretende honrar o acordo com o PL e quer um único bloco parlamentar para endossar sua candidatura e mostrar força. 

A aprovação da intervenção na Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal na segunda-feira, horas depois dos atentados em Brasília, foi considerada pelos petistas outra prova de que o melhor caminho é apoiar a recondução do atual presidente da Câmara. Ele conduziu um acordo para votação simbólica, apenas com as dissidências de alguns bolsonaristas, o que garantiu a primeira vitória no Congresso desde que Lula foi empossado. 

Lira e Lula já se encontraram três vezes nesta semana e devem voltar a se reunir, desta vez individualmente, para discutir a formação da base do governo. Lira tenta contemplar no Executivo parte de seus aliados no PP e Republicanos, além de arranjar espaço relevante para o PSDB e Cidadania no Legislativo, para contemplar todos os seus aliados. 

O presidente da Câmara também já voltou a fazer contato com as bancadas dos partidos e frentes temáticas, como a ruralista, para receber as demandas deles. Encontros deste tipo ocorreram no fim do ano e devem se repetir agora em janeiro, com a proximidade da eleição.