Valor Econômico, v. 23. n. 5667, 12/01/2023, Política, A5
Lula pede punição a vândalos e critica ‘fake news’ de Bolsonaro
Fabio Murakawa, Vandson Lima, Marcelo Ribeiro e Isadora Peron
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nessa quarta-feira (11) que “todo mundo será punido”, referindo-se aos bolsonaristas radicais que invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes no domingo, bem como aqueles que promovam novos atos que atentem contra o regime democrático.
Lula também comentou o vídeo com fake news divulgado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro na madrugada em suas redes socais. O material alardeava a tese de que o petista não ganhou a eleição. Bolsonaro apagou o material duas horas depois, em uma estratégia já utilizada antes por ele para propagar informações falsa. O vídeo continha a legenda “Lula não foi eleito pelo povo, ele foi escolhido e eleito pelo STF e TSE”, o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral, respectivamente. O presidente vinculou o comportamento dos radicais ao fato de Bolsonaro até hoje não ter assumido a derrota nas eleições.
“Lamentavelmente o presidente que deixou o poder em 31 de dezembro não reconhece o resultado. Só posso considerar [os golpistas] um grupo de aloprados, um grupo de gente com pouco senso de ridículo”, disse Lula.
Tentando demonstrar que o governo segue funcionando, apesar dos ataques, Lula deu posse no Palácio do Planalto às duas últimas ministras dos 37 que compõem seu gabinete: Sônia Guajajara (Povos Indígenas) e Anielle Franco (Igualdade Racial). As posses ocorreram com o palácio cercado por soldados do Exército e da Força Nacional, em meio a vidraças e espelhos quebrados pelos vândalos bolsonaristas no domingo.
Mais cedo, ele se encontrou com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro. E recebeu dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o decreto aprovado pelo Congresso que autoriza a intervenção na Segurança Pública do Distrito Federal.
“Qualquer gesto que contrarie a democracia será punido dentro do que a lei permite punir. Todo mundo terá direito de se defender, da prova da inocência, mas todo mundo [que for culpado] será punido”, afirmou o presidente.
Lula lembrou a queda de três torres de transmissão de energia derrubadas no Paraná e em Rondônia entre a noite de domingo, 8, e a madrugada de ontem, 9, a que classificou como “ato de criminoso, ato de bandido”. E avaliou que o decreto aprovado pelo Congresso Nacional é uma chancela do parlamento para que o governo atue duramente contra os golpistas.
“O que vocês estão fazendo com esse decreto é dizer que a gente tem que punir quem não respeita a lei”, apontou. “É garantir que a democracia continue sendo o sistema de funcionamento da política brasileira”, completou.
Ontem, o interventor nomeado por Lula, Ricardo Cappelli, convocou a impensa para anunciar uma “mobilização máxima das Forças de Segurança” diante da convocação de duas novas manifestações bolsonaristas para a quarta-feira - uma na Esplanada dos Ministérios e outra em frente à sede do governo distrital.
Porém, diante do forte aparato policial e com milhares de vândalos bolsonaristas detidos pela depredação de domingo, os atos tiveram baixíssima adesão.
Além disso, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, atendeu um pedido apresentado pela Advocacia-Geral da União (AGU) e determinou a adoção de medidas para evitar que grupos extremistas realizem novas manifestações no dia de ontem.
No pedido, a AGU anexou um panfleto de fundo verde que circula em grupos bolsonaristas, especialmente no Telegram, convocando para uma “megamanifestação nacional pela retomada do Poder” em todas as capitais.
O ministro apontou que “a escalada violenta dos atos criminosos” resultou na invasão dos prédios do STF, do Congresso e do Palácio do Planalto no último domingo, “circunstâncias que somente poderia ocorrer com a anuência, e até participação efetiva, das autoridades competentes pela segurança pública e inteligência, uma vez que a organização das supostas manifestações era fato notório e sabido”.
“Absolutamente nada justifica a omissão e conivência das autoridades locais com criminosos que, previamente, anunciaram que praticariam atos violentos contra os Poderes constituídos, tal como agora é anunciado em nova sucessão de postagens em grupos da aplicação digital Telegram, com a chamada para a ‘retomada do poder’, defendeu.
Cappelli criticou o ex-secretário de Segurança Pública, Anderson Torres por estar ausente do país durante os atos terroristas contra os prédios dos Três Poderes. Para ele, “houve falta de comando e liderança” no último domingo.
Torres, que era ministro da Justiça de Jair Bolsonaro antes de assumir o cargo, teve a prisão decretada por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que também afastou o governador Ibaneis Rocha (MDB) do cargo por 90 dias.
Torres tomou posse no dia 2, apesar da pressão do governo Lula, e viajou logo em seguida de férias para os Estados Unidos. Ele tem sido responsabilizado por autoridades locais e federais por omissão no comando da segurança que permitiu a destruição dos prédios públicos.
Atribuindo a responsabilidade pelo descontrole dos atos de domingo a Torres, Cappelli buscou demonstrar confiança nos policiais militares da capital - que foram filmados confraternizando com os manifestantes que depredaram patrimônio público.
“A mesma secretaria com os mesmos homens conduziram operação exemplar na posse do presidente Lula. O que mudou do dia 1º para o dia 8 é que o senhor Anderson Torres assumiu a secretaria no dia 2. Ele mudou todo o comando da secretaria e viajou para os EUA”, afirmou. “É muito estranho que o Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal assuma sua função no dia 2, exonere e troque quase todo o comando da secretaria e viaje. E, alguns dias depois, aconteça o que aconteceu em Brasília. Isso é coincidência?”
Ele disse ainda ter informações de que Torres está voltando ao país e irá se entregar às autoridades. Mas afirmou ainda não ter informações sobre quando isso ocorrerá. O ex-secretário já disse que retornará ao Brasil para se entregar. Nesta terça-feira, uma pane no sistema de controle aéreo provocou o cancelamento de milhares de voos nos Estados Unidos, o que pode atrasar a sua volta ao país.
A PF concluiu ontem a triagem dos bolsonaristas detidos no último domingo. Ao todo, 1.159 pessoas foram presas e encaminhadas para o Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
A PF também informou que 684 pessoas foram liberadas, a maioria idosos e mulheres, que estavam com crianças. Ao todo, a PF deteve 1.843 pessoas após o desmonte acampamento em frente ao quartel-general do Exército.
Os golpistas foram presos por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou que o acampamento fosse desfeito.
Com a continuidade das investigações, eles poderão ser condenados pela prática de crimes previstos na Lei Antiterrorismo, além de tipos penais como golpe de Estado, associação criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, incitação ao crime e dano ao patrimônio público.