Valor Econômico, v. 23. n. 5667, 12/01/2023, Opinião, A10 

Investida contra inflação pode ainda estar longe do fim 

 

O ano passado não terminou com boas notícias sobre a inflação, que estourou a meta pelo segundo ano consecutivo e, pela expectativa do Banco Central, pode ultrapassar o teto da meta de novo em 2023. É certo que o IPCA se afastou dos dois dígitos (foi de 10,1% em 2021), fechou o ano em 5,79%, mas o grande recuo se deu graças aos artifícios eleitorais do governo Bolsonaro para reduzir tributos sobre as tarifas de energia, combustíveis e telecomunicações. Sem o auxílio da redução de impostos, a inflação ficaria ao redor de 9,5%. 

Não há mais truques possíveis de serem feitos, salvo um controle dos reajustes dos combustíveis pela Petrobras. O que os analistas esperam é o contrário, uma reoneração pelo menos da gasolina, projetando um IPCA mais perto de 6% do que do teto da meta, de 4,75% no ano. 

Dezembro terminou com alta de 0,62% e um índice de difusão dos aumentos de 69%, ante 59% em novembro. Os alimentos foram os que mais contribuíram para o índice, com 2,41 pontos percentuais dos 5,79%. O fim das restrições à mobilidade esquentou o setor de serviços e seus preços, levando-os de 4,75% em 2021 a 7,65% no ano passado. O saldo do comportamento dos serviços subjacentes, mais vinculados ao ciclo econômico, foi maior, de 5,9% para 8,9%. 

Para a baixa, transportes foi o setor que se destacou, com deflação de 1,3% proporcionada pelos combustíveis. Pelos cálculos de Luis Leal, economista-chefe do Banco Alfa, as ações do governo retiraram 2,16 pontos percentuais do índice geral, com quedas de 23,9% nos combustíveis e 19% na energia. No fim das contas, os preços livres aumentaram de um ano para outro (de 7,4% para 9,4%), enquanto que o dos preços administrados tiveram deflação de 3,8%, a maior da última década, segundo a consultoria MCM. Este ano, ao contrário, os preços livres terão de ceder significativamente para abrir espaço à correção dos preços administrados. 

Mesmo com juros altos, a média dos núcleos indica que a batalha da inflação está longe de ser vencida. Nos doze meses até dezembro, ela foi de 9,18%, pelos calculados da MCM. Já antes do governo Lula assumir houve deterioração das expectativas inflacionárias, com as projeções das últimas 4 semanas do Focus se distanciando do teto da meta de 2023 (de 5,08% para 5,36%) e começando a se desgarrar da meta nos anos seguintes (de 3% para 3,7% em 2024 e de 3% para 3,2% em 2025). 

Na carta ao ministro da Fazenda, que o BC é obrigado a enviar explicando os motivos pelos quais a meta de inflação não foi atingida, Roberto Campos Neto atribuiu à inércia o fator principal, isto é, à força da persistência inflacionária passada influenciando os preços no presente. Os demais fatores da carta são conhecidos: alta das commodities com a guerra na Ucrânia, descompasso entre oferta e demanda, choques climáticos que pressionaram os preços dos alimentos e retomada do setor de serviços com o fim das restrições à mobilidade. 

O BC pôs fim ao ciclo de alta e acredita que o IPCA convergirá para a meta, ainda que mais lentamente do que gostaria. A alta do juro real, com a Selic projetada um ano à frente menos o IPCA estimado para o mesmo período, segundo Campos Neto, “é a maior durante o regime de metas” até hoje. O juro real neste primeiro trimestre é de 7,8% e o BC estima chegar ao fim do ano com 6,9%, ou seja, taxa nominal acima de 12%. Em 2024, a política monetária ainda será restritiva, com 5,28% de taxa real para só em 2025 se aproximar da taxa neutra, com 4,5%. 

Os efeitos defasados do aperto nos juros terão de esfriar a economia para que os preços se comportem, mas por enquanto há ruídos em demasia para se prever que isso vai acontecer. O novo governo obteve licença extra para gastar mais R$ 90 bilhões a R$ 100 bilhões, o que significa que, se nada for feito, o déficit primário chegará a 2% do PIB. Estímulos fiscais vão na contramão da política monetária e essa contradição poderá perpassar o ano todo. 

O ministro Fernando Haddad disse que os juros estão muito altos, mas não pelos motivos que apontou: a inflação brasileira é muito menor que a dos países desenvolvidos e os juros domésticos são o triplo. O fato é que o IPCA caiu porque os juros foram elevados e o BC começou a empurrá-los para cima bem antes que os BCs dos países ricos, que parecem distantes do fim do ciclo. Os números de 2022 mostram, porém, que boa parte dos componentes do IPCA segue ritmo de inflação semelhante ao de EUA e Europa, na faixa dos 9%. Reduzi-los não será uma tarefa simples.