O Globo, n 32.363, 16/03/2022. Política, p. 04

CARTÃO DE BOAS-VINDAS

Camila Zarur e Eduardo Gonçalves


Leite enfrenta resistências no PSD, que reúne aliados de Lula e bolsonaristas

Em negociações avançadas para se filiar ao PSD e disputar a Presidência da República, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), já enfrenta resistências de nomes importantes da legenda antes mesmo de ingressar nela. Heterogênea e pouco ideológica, a sigla com a qual o gaúcho flerta tem em seus quadros entusiastas declarados da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), assim como aliados do presidente Jair Bolsonaro (PL) e até integrantes do primeiro e segundo escalões do governo de João Doria, em São Paulo, como o secretário de Fazenda, Henrique Meirelles, e o secretário-executivo da PM, Coronel Alvaro Batista.

Leite passou a conversar efetivamente com Gilberto Kassab, presidente do PSD, só depois de ter sido derrotado por Doria nas prévias realizadas pelos tucanos para escolher o nome da legenda que vai concorrer ao Palácio do Planalto. Ao mesmo tempo em que vai encontrar descontentes na provável futura casa, Leite tende a deixar aliados insatisfeitos na atual. Lideranças do PSDB se irritaram com o movimento do correligionário de abandonar o partido ao qual é filiado há 21 anos após perder a disputa interna.

Políticos do PSD que pendem à esquerda e à direita já começaram a criticar o projeto Leite sem que ele sequer tenha sido sacramentado. Os senadores Otto Alencar (BA) e Omar Aziz (AM), ambos candidatos à reeleição, são exemplos de aliados de Lula que não pretendem abrir mão do apoio ao petista para reforçar um eventual palanque de Leite.

—Na Bahia, já temos aliança com o PT e vamos apoiar Lula. Isso é antes de Kassab falar do Eduardo Leite. Nada tenho contra ele —disse Otto Alencar ao GLOBO.

Aziz também critica o plano do governador gaúcho de se filiar à legenda para concorrer à Presidência sem ter relação com membros do PSD. Para integrantes da sigla, a situação de Leite é diferente da qual estava o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), que até semana passada era cotado pelo partido para disputar o Planalto. Na visão de colegas de bancada, o mineiro — que anunciou sua saída da corrida presidencial — era um nome mais palatável, apesar de ter se filiado recentemente à sigla, por já ter relação com outros parlamentares.

— Com todo respeito que tenho ao Eduardo Leite, não dá para, às vésperas do prazo para formar as chapas, querer se filiar ao partido e se candidatar à Presidência — diz Aziz.

Em Minas, o governador Alexandre Kalil também já trocou acenos públicos com Lula — dirigentes locais do PT também não se opõem à composição, mas ainda insistem que o nome para o Senado deve ser petista.

AS “PARTICULARIDADES”

No lado oposto, os aliados de Bolsonaro no PSD também passaram a declarar publicamente o palanque em que estarão, independentemente da provável chegada de Leite. É o caso do senador Vanderlan Cardoso (GO).

—Assim como o Otto apoia o Lula na Bahia, eu apoio o Bolsonaro em Goiás. O PSD tem essa particularidade — declarou o senador.

O alinhamento também pode ser observado em outras esferas: 30 deputados do PSD votaram a favor da proposta do voto impresso, tema que mobilizou Bolsonaro e aliados. A proposta, no entanto, não foi aprovada. No governo federal, a legenda ocupa espaços na Fundação Nacional da Saúde (Funasa).

Parte do desconforto dos políticos do PSD com a ida de um novo integrante passa pelo caixa do partido. Eles se queixam de que, se a legenda tiver candidatura própria à Presidência, faltará verba nos estados. O deputado federal Joaquim Passarinho (PA), vice-líder do governo na Câmara, já afirmou que só não disputará o governo do Pará, porque “não há dinheiro suficiente”. No Paraná, o governador Ratinho Jr. tem ao seu lado o PP, do líder do governo, Ricardo Barros (PR). Uma das possibilidades é que o mandatário abra espaço em seu palanque para Bolsonaro.

Apesar das resistências, a migração de Leite já é dada como certa por parte dos membros do partido. Se confirmada, a filiação deverá ocorrer na semana que vem. Ontem, ele se encontrou com Kassab. O GLOBO apurou que, durante a reunião, o presidente da legenda argumentou que, ao mesmo tempo em que representa uma renovação na política, Leite já tem no currículo uma boa gestão à frente do governo estadual. Em resposta, Leite sinalizou que se reuniria com líderes do PSDB para azeitar sua saída.

Nos bastidores, porém, há um motivo maior para que Kassab lute para ter candidatura própria ao Planalto, segundo pessoas ligadas a ele. Com um nome do partido disputando a Presidência, o cacique do PSD não precisaria apoiar Lula ou Bolsonaro logo no primeiro turno e também aumentaria o seu passe na negociação para subir no palanque de um dos dois numa eventual segunda etapa das eleições.

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