O Globo, n 32.363, 16/03/2022. Economia, p. 12
Bolsonaro cobra da Petrobras redução de preços
Daniel Gullino, Gabriel Shinohara e Manoel Ventura
Com barril de petróleo a menos de US$ 100, diminui a possibilidade de o governo decretar estado de calamidade para liberar orçamento. Guedes diz que país está preparado se vier 'uma segunda guerra mundial”
O presidente Jair Bolsonaro cobrou ontem que a Petrobras acompanhe a queda no preço do petróleo no mercado internacional e diminua o preço dos combustíveis no Brasil. Bolsonaro disse que “com certeza” a empresa fará isso. O preço do barril voltou a cair ontem, ficando abaixo de US$ 100. O do tipo Brent, negociado em Londres, caiu 6,54%, a US$ 99,91.
—Estamos tendo notícia de que, nos últimos dias, o preço do petróleo lá fora tem caído bastante. A gente espera que a Petrobras acompanhe a queda do preço lá fora. Com toda certeza ela fará isso daí —discursou Bolsonaro, em cerimônia no Palácio do Planalto.
Depois, o presidente voltou ao tema e, de forma irônica, chamou a Petrobras de “querida” e disse que a empresa teve “sensibilidade” ao não esperar para anunciar o reajuste realizado na semana passada.
—E espero que a nossa querida Petrobras, que teve muita sensibilidade ao não nos dar um dia (antes de anunciar o aumento), retorne aos níveis de semana passada os preços do combustível no Brasil.
Apesar da cobrança de Bolsonaro, mesmo com a recente queda do petróleo e após o último reajuste da Petrobras, a defasagem da gasolina em relação ao mercado internacional estava em 6%, com o preço no Brasil R$ 0,25 menor que no exterior. No caso do diesel, essa diferença é de 2%, ou R$ 0,10, de acordo com a Abicom, associação que reúne os importadores.
A redução da cotação do barril de petróleo no mercado internacional afasta, por enquanto, a possibilidade de o governo decretar estado de calamidade pública para mitigar no país os efeitos nos preços do petróleo da guerra na Ucrânia.
Na semana passada, o barril encostou em US$ 140, aproximando-se da máxima de US$ 147 registrada em 2008.
O estado de calamidade suspende as amarras fiscais (inclusive o teto de gastos, que limite as despesas do governo). Permite ao governo gastar mais e foi usado durante a pandemia de Covid-19, em 2020.
Como informou a colunista do GLOBO Bela Megale, o Ministério da Economia acha que o estado de calamidade deve ser a última cartada.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou ontem que o Brasil já “se levantou” da pandemia e está preparado para enfrentar os impactos da guerra. Mas acabou dizendo que o país estaria preparado se viesse uma “segunda guerra mundial”:
— Nós estamos com déficit zerado. Estamos prontos para outra briga, se vier segunda guerra mundial, estamos prontos de novo.
Guedes explicou que ele se referia a dois eventos mundiais, a pandemia e a guerra.