Valor Econômico, v. 23. n. 5668, 13/01/2023, Brasil, A4
Brasil tem déficit recorde no comércio com EUA
Anaïs Fernandes 

 

Apesar do contexto externo turbulento, a parceria comercial entre Brasil e Estados Unidos se fortaleceu em 2022, principalmente a importação de bens americanos, o que levou o Brasil a acumular um saldo negativo sem precedentes no comércio com o país. 

O déficit na balança comercial brasileira com os EUA cresceu quase 70% em relação a 2021, para US$ 13,9 bilhões. Este foi também o maior déficit bilateral do Brasil em relação a todos os seus parceiros comerciais em 2022. Os dados são do “Monitor do Comércio Brasil-EUA”, da Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil). 

“O aumento do déficit ocorre em um contexto em que as exportações do Brasil para os EUA estão crescendo de forma consistente em quantidade e valor, ao mesmo tempo em que observamos a qualidade do que o Brasil importa dos EUA. Houve um aumento do saldo negativo, de fato, e isso chama a atenção, mas, do ponto de vista econômico, fala mais alto o avanço da corrente de comércio, que deu um salto. É uma relação extremamente favorável”, diz Abrão Neto, CEO da Amcham Brasil. 

A corrente de comércio (soma de exportações e importações) do Brasil com os EUA atingiu o recorde de US$ 88,7 bilhões em 2022, alta de 26% ante 2021, que já tinha sido a maior marca histórica. 

“Foi um desempenho contundente do comércio bilateral, com recorde em todos os principais indicadores, mesmo a partir de uma base de comparação elevada. Indica um momento de forte dinamismo das relações comerciais entre Brasil e EUA”, afirma Abrão. 

A participação dos EUA na corrente de comércio do Brasil com o mundo subiu de 14,1% em 2021 para 14,6% em 2022. Ainda está abaixo, porém, do pré-pandemia (15,8% em 2019). “Tem espaço para voltar, o que depende, em certa medida, também de uma agenda ambiciosa entre os países”, diz Abrão. 

Tanto nas exportações quanto nas importações os EUA aumentaram sua participação no comércio brasileiro. O crescimento das importações brasileiras do mundo foi de 24%, ante 2021, enquanto dos EUA foi de 30%, segundo a Amcham. Já o aumento das exportações do Brasil para o mundo foi de 19%, mas para os EUA foi de 20%. 

As compras brasileiras vindas dos EUA alcançaram o valor recorde de US$ 51,3 bilhões. O aumento dos preços médios das importações, de 35,6% ante 2021, explica o movimento, já que, em volume, houve queda de 4%. Nove dos dez principais produtos importados pelo Brasil dos EUA cresceram em valor em 2022, com destaque para os de energia. Óleos combustíveis, petróleo bruto e carvão mineral representaram 69,2% do aumento das importações. Todos tiveram seu valor influenciado pelo conflito na Ucrânia, observa a Amcham. Também como desdobramento da guerra, houve incremento nas compras de adubos e fertilizantes, para R$ 1,6 bilhão. “Os EUA têm papel importante na nossa cadeia agrícola”, diz Abrão. 

Os EUA atingiram seu pico de participação como fornecedor do Brasil, representando 18,8% do total das importações, um pouco atrás da China, com 22,3%. 

As exportações do Brasil para os EUA - segundo principal destino dos bens nacionais, com 11,2% de participação, também atrás da China - foram recorde: US$ 37,4 bilhões, embora tenham crescido menos do que as importações. “A exportação do Brasil para os EUA cresceu quase um ponto percentual e meio a mais do que para o mundo em 2022”, destaca Fabrizio Panzini, superintendente de relações governamentais da Amcham. 

O avanço foi liderado pelo aumento de preços (20%), de itens como petróleo e café, além do crescimento do volume das exportações (8%), observado em sete dos dez principais produtos exportados. 

Petróleo bruto, ferro-gusa, café não torrado e aeronaves concentram mais da metade do crescimento das exportações brasileiras para os EUA em 2022, observa a Amcham. Mas, dos dez principais produtos da pauta, oito passaram a ter mais de US$ 1 bilhão em exportação, indicando crescimento disseminado, segundo Panzini. 

“As aeronaves voltam a uma posição de destaque. Os EUA se consolidam como o principal destino para exportação de produtos da indústria de transformação, que costumam ter um valor agregado maior”, diz Abrão. 

Apesar de um cenário externo desafiador, a Amcham projeta estabilidade nos fluxos de comércio entre Brasil e EUA para 2023, que podem atingir patamares próximos aos de 2022. “O ponto de atenção é que é uma projeção feita em um contexto de incertezas econômicas e geopolíticas bastante elevadas, o que pode alterar esse quadro, a depender da evolução de fatores como a pressão inflacionária, o crescimento mundial, dos EUA e do Brasil e os conflitos na Europa”, exemplifica Abrão. 

Sobre os ataques à democracia no Brasil, como as invasões às sedes dos Três Poderes no domingo passado, Abrão diz ver, nesse contexto, mais potencial para aproximação entre Brasil e EUA do que barreiras. “Obviamente, o que aconteceu foi grave, mas parece que não terá efeitos significativos sobre a relação comercial ou bilateral”, afirma.