O Globo, n 32.364, 17/03/2022. Economia, p. 14

Com crédito europeu, Neoenergia investe em energia solar e eólica

Bruno Rosa


Após guerra na Ucrânia, banco da Europa quer diversificar matriz energética

A Neoenergia pretende colocar em operação ainda neste ano um parque eólico entre os estados do Piauí e da Bahia e outro empreendimento solar na Paraíba. Os dois polos vão se juntar a um projeto eólico que acabou de ser inaugurado na Paraíba. Juntos, os investimentos no Nordeste somam mais de R$ 5 bilhões. Do total, cerca de R$ 1,1 bilhão (€ 200 milhões) conta com financiamento do Banco Europeu de Investimento (BEI).

Ontem, o presidente da Neoenergia, Mario Ruiz Tagle, e o vice-presidente do BEI, Ricardo Mourinho Félix, fizeram uma cerimônia no Rio para celebrar a assinatura do contrato de financiamento, que deveria ter ocorrido em dezembro, mas foi adiada por conta da variante Ômicron.

ENERGIA EÓLICA NO MAR

Félix, do BEI, disse que essa foi a primeira operação de financiamento para o Brasil no ano. Destacou ainda que o país tem papel essencial na transição energética em um momento em que a Europa vai buscar maior diversificação energética com a guerra na Ucrânia.

Ele lembrou que o Brasil responde, em média, por cerca de 42% dos financiamentos anuais para a América Latina, de € 800 milhões (cerca de R$ 4,5 bilhões). Disse que espera que este ano os empréstimos fiquem nesse patamar.

— Temos que olhar para além do Atlântico. A guerra está afetando toda a cadeia de produção. Temos que acelerar a transição e olhar para a guerra e ver como construir uma diversificação energética para que cada nação não seja dependente de apenas uma fonte —disse Félix.

Para ele, o Brasil tem grande potencial econômico com o hidrogênio verde.

—O Brasil pode ser um dos principais exportadores de hidrogênio verde. Estamos procurando projetos que possam gerar impacto. A transição energética tem que ser feita em prol dos cidadãos.

A Neoenergia também mira uma diversificação. Além dos novos projetos de solar e eólica — que vão somar capacidade de 1.1 GW, cerca de um quarto dos 4GW atuais — a companhia estuda o potencial do hidrogênio e energia eólica no mar. Segundo Ruiz-Tagle, a companhia está estudando o potencial para gerar energia dos ventos em alto-mar em Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Fortaleza.

—O que está acontecendo na Europa pode ajudar a trazer mais recursos para o Brasil. O mundo tem muito recurso para desenvolver energia verde. No caso da energia eólica no mar, acreditamos que em três a cinco anos o primeiro projeto já esteja pronto — afirmou o presidente da Neoenergia.

Ruiz-Tagle disse que o pacote de socorro ao setor elétrico, com um empréstimo coordenado pelo governo de R$ 10,5 bilhões às distribuidoras, montante que será repassado às tarifas a partir de 2023, foi “um sinal suficiente para olhar para frente com maior tranquilidade”.