O Globo, n 32.364, 17/03/2022. Mundo, p. 18
PARA O PÚBLICO INTERNO
André Duchiade
PUTIN ANUNCIA AJUDA A POPULAÇÃO E DIZ QUE DOMÍNIO DO OCIDENTE ESTÁ NO FIM
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou ontem um pacote econômico em que o Estado assume um papel muito maior na economia russa, com medidas como pagamentos de auxílios a pessoas com dificuldades e controle de preços de bens essenciais.
As medidas foram anunciadas em um discurso de alto teor político, no qual o presidente se dirigiu ao povo russo para justificar a invasão da Ucrânia. Suas afirmações, durante uma reunião televisionada com ministros, se dirigiram principalmente ao público interno e tiveram o objetivo de justificar a guerra, com tintas nacionalistas, muitas menções críticas ao Ocidente e vitimismo.
‘CONVERSAS HIPÓCRITAS’
Os tópicos que abordou foram diversos: não houvesse o ataque, a Ucrânia receberia em breve ajuda estrangeira para desenvolver armas nucleares e lançaria uma ofensiva contra a Rússia. A “operação militar especial” — eufemismo oficial russo para a invasão — “era inevitável e “vai conforme o planejado ”. As sanções econômicas contra o país não têm relação com a invasão.
— O Ocidente está tentando cancelar a Rússia — disse.
Na economia, as principais medidas, segundo a agência russa RIA, são: aumento dos pagamentos sociais; apoio direcionado para cidadãos que se encontram numa situação difícil; monitoramento dos preços de bens essenciais; medidas para assegurar o emprego, incluindo formação de profissionais; empréstimos e redução das barreiras administrativas e a empresas.
Várias vezes, Putin tentou descolar as sanções contra a Rússia da guerra, descrevendo-as como inevitáveis. Embora tenha lembrado que as sanções farão “os custos da energia no Ocidente subirem” — o que, em teoria, deveria significar que os países ocidentais quisessem evitá-las — Putin afirmou que o “Ocidente teria imposto sanções à Rússia de qualquer maneira, pois apenas buscava uma razão para impor sanções à Rússia”.
— A política de conter a Rússia é deliberada e de longo prazo — afirmou. — Por trás das conversas hipócritas e das ações atuais do chamado Ocidente coletivo, existem objetivos geopolíticos hostis. Eles não precisam de uma Rússia forte e soberana.
Ele criticou pontualmente algumas das sanções, como o bloqueio das reservas do Banco Central da Rússia depositadas no exterior, dizendo que ele é “uma lição para os negócios russos”. Putin disse que é esperado um aumento na inflação e no desemprego.
— A nova realidade exigirá mudanças profundas na economia — afirmou.
Pouco depois, acrescentou que“direito de propriedade será respeitado”, para espantar lembranças da era soviética. Insinuou ainda que um calote é provável, prognóstico de muitos analistas financeiros.
— Os EUA e a União Europeia efetivamente decretaram um calote russo — afirmou.
Putin comparou várias vezesas sanções ao nazismo e aos “pogroms”, disse que “o regime pró-nazista de Kiev possivelmente em breve teria armas de destruição em massa” disse afirmou que o Ocidente quer “organizar uma Blitzkrieg econômica”. Nesse ponto, apelou ao nacionalismo:
— Estou convencido de que uma autopurificação tão natural e necessária da sociedade só fortalecerá nosso país, nossa solidariedade, coesão e prontidão para responder a quaisquer desafios — afirmou.
DESAFIO E TRIUNFO
Quanto à guerra, Putin afirmou que ela está “indo conforme o planejado”. O conflito, porém, completa três semanas hoje sem que nenhuma das dez maiores cidades da Ucrânia tenha sido dominada, com a campanha pouco avançando e a maioria das forças russas em pausa, após perder centenas de veículos blindados e um número ainda indeterminado de soldados, mas estimado em milhares.
O presidente russo acusou o Ocidente de levar as autoridades de Kiev a derramar sangue, fornecendo-lhes armas e mercenários. Segundo a Reuters, o presidente russo deve decidir nos próximos dias se interrompe a sua ofensiva, mas, de acordo com uma fonte russa não identificada da agência, “a chance disso é pequena”.
No mesmo dia em que a Chancelaria russa anunciou avanços nas negociações, Putin fez uma breve menção a uma saída diplomática, dizendo que “sempre esteve disposto” a negociar. O tom geral de sua mensagem, entretanto foi de desafio e triunfo:
— Se o Ocidente pensa que a Rússia vai recuar, não entende a Rússia — afirmou Putin. — Os eventos atuais põem fim à dominação política e econômica global do Ocidente.