O Globo, n 32.364, 17/03/2022. Política, p. 06
Aliados trabalham para manter Leite no PSDB
Eduardo Gonçalves, Bruno Góes e Gustavo Schmitt
Grupos ligados ao governador querem convencer a cúpula do partido a encampar a candidatura de um nome mais competitivo à disputa pelo Planalto em substituição a Doria. Gaúcho vê chance em acordo entre tucanos, MDB e União Brasil de lançarem candidato único
Diante da crescente possibilidade de o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, deixar o PSDB rumo ao PSD para disputar a Presidência da República, seus aliados aumentaram a pressão sobre a cúpula tucana para enterrar a pré-candidatura do governador de São Paulo, João Doria, ao Palácio do Planalto. O comando da legenda admite estar negociando a permanência de Leite e diz que, a depender do cenário, pode encampar a candidatura de um nome mais competitivo na corrida ao Executivo federal. Leite foi derrotado por Doria nas prévias do partido.
O grupo ligado a Eduardo Leite vê uma oportunidade no acordo que vem sendo costurado por dirigentes do PSDB, MDB e União Brasil para lançarem um candidato único até 1º de junho. Essa ala defende a tese de que, uma vez acertada a aliança, perde-se a garantia de que Doria será o representante tucano na eleição presidencial e, portanto, Leite poderia voltar ao páreo. Essa parcela da legenda se fia no mau desempenho do governador de São Paulo nas pesquisas, nas quais ele figura na casa dos 3% das intenções de voto.
— É preciso hoje que o presidente do partido assuma o papel de criar as condições para que o nome do Eduardo possa ser submetido a esse conjunto de partidos. Não podemos permitir que as prévias se transformem numa camisa de força —cobrou o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), opositor declarado de Doria.
Pressionado internamente a tomar uma posição sobre a candidatura de Doria, o presidente do PSDB, Bruno Araújo, rechaçou qualquer plano de acordo que “passe por não reconhecer o desenho das prévias”, mas admitiu as negociações com Leite.
— Não há negócio ou oferta no partido. O PSDB não tem dono. José Serra não foi dono. Geraldo Alckmin não foi. João Doria não é dono do PSDB. Eu não sou. Eduardo tem tudo para poder liderar esse partido, que tem alternância de poder. Essa tese que nós lembramos a ele —disse Araújo, na noite de terça-feira.
Primeiro vice-presidente do PSDB e um dos principais aliados de Doria, o deputado Domingos Sávio (MG) reconhece que hoje nenhum nome da terceira via “desperta o interesse da população”. Ele defende que o ideal seria construir uma agenda de pautas para atrair o eleitor e, só depois, verificar qual seria o nome mais competitivo para encabeçar a chapa presidencial.
— Não acredito que o PSDB vá mudar o nome do candidato. Mas é claro que se nós estamos tentando construir uma aliança com outros partidos, é preciso ter humildade para discutir outros nomes —afirmou Sávio.
DESCONTENTAMENTO
Se por um lado trabalham por fazer gestos na direção de Leite, nos últimos dias alguns de seus aliados no PSDB também deixaram claro que há uma grande insatisfação interna com a possível migração do gaúcho para o PSD. Um quadro histórico do PSDB e um dos políticos mais próximos a Eduardo Leite disse que o correligionário vai cometer “erro gravíssimo” caso se desfilie para se candidatar à Presidência pela legenda comandada por Gilberto Kassab.
Embora diga que respeita o resultado das prévias, Leite deixou claro em coletiva à imprensa em Porto Alegre que entende que a negociação com outros partidos de centro está acima da votação interna do PSDB:
— O PSDB falou agora junto dos outros partidos com quem discute a coligação sobre jogo zerado. Então, se zerou o jogo e o partido tem a disposição de conversar inclusive sobre uma candidatura sendo liderada por outro (candidato) que não seja do PSDB, por que não discutir dentro do próprio partido? Essa discussão também pode ser ensejada.