O Globo, n 32.364, 17/03/2022. Política, p. 06
Joalheria em que Cabral lavava dinheiro leva multa de R$ 18 milhões
Bela Megale
Punição foi aplicada ao grupo H. Stern e seus administradores, alvos da Lava-Jato, por ocultarem recursos de esquemas de corrupção
O Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional, ligado ao Ministério da Economia, impôs às empresas do grupo H. Stern e seus administradores multas que somam R$ 18 milhões por descumprirem regras da lei que combate a lavagem de dinheiro. A joalheria foi alvo da Operação Lava-Jato sob acusação de ajudar o ex-governador do Rio Sérgio Cabral e a ex-primeira-dama, Adriana Ancelmo, a ocultar recursos de esquemas de corrupção.
As sanções foram aplicadas a três empresas — H. Stern Comércio e Indústria, HSJ Comercial e Nelly Jóias e Curiosidades — e aos irmãos Roberto e Ronaldo Stern, donos da marca. O colegiado entendeu que, entre outras irregularidades, a joalheria não manteve cadastro atualizado de clientes, não adotou controles internos compatíveis com o volume de suas operações e deixou de comunicar transações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf ).
As decisões foram tomadas em três processos em dezembro, com a publicação de acórdãos em janeiro. Na ocasião, o conselho analisou recursos a penalidades aplicadas às empresas pelo Coaf em 2020, mantendo a maioria delas.
Além das multas, foi determinada a inabilitação de Roberto Stern para administrar por três anos empresas integrantes do sistema financeiro. Procurado, o grupo H. Stern não se manifestou sobre as sanções e não respondeu aos questionamentos do GLOBO.
A H. Stern caiu na teia da Lava-Jato quando se descobriu que o ex-governador e a ex-primeira-dama compravam artigos milionários na rede, com recursos em espécie. Entre as peças, havia um brinco de ouro 18 quilates, com brilhante solitário, de R$ 1,8 milhão.
MAIS DE 500 PEÇAS
Em 2017, com o avanço das investigações pela Lava-Jato, o alto escalão da joalheria fez um acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal do Rio e se comprometeu a pagar R$ 18 milhões em multas.
À época, os delatores da H.Stern listaram 41 joias compradas por Cabral e Adriana desde 2009, um total de 30 peças (R$ 4 milhões) a mais do que era conhecido pelos investigadores. Segundo depoimento de uma diretora da empresa, a maioria das joias era fabricada sob encomenda para Adriana, que gostava de usar peças exclusivas.
Em outra joalheria, a Antonio Bernardo, o casal comprou, segundo levantamento da Lava-Jato, 460 peças que totalizaram cerca de R$ 5,7 milhões. Em um de seus depoimentos, Sérgio Cabral afirmou que usava sobras de campanha para comprar joias. Já Adriana Ancelmo, ao ter joias apreendidas em sua casa, afirmou que as peças foram compradas por ela com dinheiro lícito ou foram presentes de seu marido.
Ainda de acordo com o depoimento, Cabral sempre pedia que não fossem emitidas notas fiscais. Quando a compra era feita por Adriana, às vezes eram emitidas notas, às vezes não. Uma compra foi paga em uma conta na Alemanha, a pedido do ex-governador.
JOIAS LEILOADAS
Em julho do ano passado, um lote de jóias e relógios de luxo que pertenciam ao ex-governador Cabral e à ex-primeira-dama, avaliados em R$ 1 milhão, foram a leilão virtual. À época, foram colocados à venda nove relógios — sendo três da marca Rolex—; 20 pares de brincos; duas pulseiras; sete anéis; dois colares — um de pérolas e outro de ouro —; uma medalha com diamantes e um par de abotoaduras.
Um ano antes, 40 joias da ex-primeira dama foram leiloadas a pedido da Lava-Jato fluminense. A avaliação dos bens chegou a R$ 455,3 mil.
Delatores da H.Stern listaram 41 jóias compradas por Cabral e Adriana