O Globo, n 32.364, 17/03/2022. Economia, p. 11

Bolsas sobem na China, e Alibaba dispara com alívio de Pequim



Para evitar saída de capitais por juros nos EUA, governo reduz cerco a “big techs'

Após dois dias de fortes quedas, nos quais as empresas chinesas perderam US$ 1,5 trilhão em valor de mercado, as Bolsas de Hong Kong e da China tiveram forte alta ontem após Pequim sinalizar que vai reduzir o cerco regulatório às gigantes de tecnologia do país e que tomará medidas para evitar instabilidades no mercado financeiro.

As ações das chinesas dispararam: os papéis da Alibaba, conglomerado que é dono da Aliexpress, subiram 27%. Os papéis da Tencent, de telecomunicações e prestação de serviços de internet, tiveram alta de 23%. E os da Meituan, plataforma de delivery, de 32,1%.

A Bolsa de Hong Kong chegou a registrar alta de 13%, para depois perder um pouco o fôlego e fechar em valorização de 9,08%. Em Xangai, o principal índice local terminou o dia em alta de 4,32%.

SUSTO COM EVERGRANDE

Após uma reunião entre seus principais membros, o Comitê de Estabilidade e Desenvolvimento Financeiro do Conselho de Estado chinês divulgou que vai “introduzir ativamente políticas que beneficiem os mercados”. Na avaliação dos analistas, o recado aos investidores foi claro: uma ampla repressão às empresas de internet estava chegando ao fim e o governo impediria um colapso desordenado no setor imobiliário.

O setor de tecnologia vinha sendo alvo de um aperto regulatório, com Pequim pressionando as empresas a não lançarem ações em Bolsas de Valores do exterior. E a indústria de construção está há meses sob forte pressão, desde que a incorporadora Evergrande, uma gigante do segmento, entrou em colapso e começou a atrasar o pagamento de credores e a entrega de obras.

Segundo a agência de notícias estatal Xinhua, que na prática funciona como uma divulgação das notícias do governo, o vice-primeiro-ministro do país, Liu He, também afirmou na reunião que haveria maior coordenação com os órgãos reguladores de Hong Kong.

— O anúncio (do governo chinês) abordou vários temas sensíveis em diferentes frentes, o que é raro — avaliou Ding Shuang, economista chefe para China e Norte da Ásia no Standard Chartered.

‘AÇÃO PRÓ-ATIVA’

O Comitê de Estabilidade e Desenvolvimento Financeiro também afirmou que a política monetária do país será “pró-ativa” e que novos empréstimos “vão crescer de forma apropriada”.

Não por acaso, a ação coordenada do governo chinês em várias frentes — no setor de tecnologia, de construção e também na promessa de estímulo monetário — ocorreu pouco antes da esperada alta de juros pelo banco central americano. Autoridades chinesas vinham alertando que taxas maiores nos EUA poderiam levar a uma maior saída de capitais do país.

— É bastante positivo, pelo menos no momento, já que Liu abordou algumas das principais preocupações do mercado, especialmente em relação à repressão regulatória —disse Ting Lu, economista-chefe da China no Nomura.