Valor Econômico, v. 23. n. 5672,19/01/2023, Brasil, A2
Fiocruz dá novo passo para remédio contra covid
Alessandra Saraiva
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) enviou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o dossiê pré-clínico de um medicamento antiviral contra covid-19, que está em desenvolvimento pelos pesquisadores da instituição em parceria com a empresa Microbiológica e o Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP).
Segundo a fundação, o item demonstrou-se eficaz para inibir a replicação do Sars-CoV-2, causador da doença, em linhagens de células humanas hepáticas e pulmonares. A substância também demonstrou sinais de conseguir auxiliar a frear o processo inflamatório desencadeado pelo vírus.
A partir de aprovação do dossiê pré-clínico na Anvisa, pode ser iniciada a primeira fase de ensaios clínicos.
O pesquisador Thiago Moreno, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz), um dos principais autores do estudo, afirmou que a ideia é cumprir todas as etapas necessárias para desenvolvimento de medicamento no Brasil. “Desde a fase de planejamento, síntese, caracterização química, caracterização de mecanismo de ação e os estudos pré-clínicos de segurança, tolerabilidade e eficácia.”
“Nosso objetivo é que essa substância possa se tornar um antiviral inovador, desenvolvido no Brasil desde a sua concepção, visando a que a gente tenha mais independência nesse tipo de tecnologia que teria alto custo de importação para o SUS [Sistema Único de Saúde]”, completou.
Além de atuar como antiviral, o medicamento conseguiu frear o processo inflamatório desencadeado pelo coronavírus, segundo a Fiocruz. Moreno pontuou que essa característica é fundamental no combate à covid-19. Isso porque, salientou, a doença não manifesta só uma destruição viral, mas serve muitas vezes como gatilho para uma resposta inflamatória exacerbada do organismo do paciente.
Os pesquisadores da Fiocruz ponderam, no entanto, que a covid-19, assim como outras doenças de natureza viral, não será curada com único medicamento. Eles entendem que será necessário administrar um coquetel de medicamentos para tratar os casos mais graves da doença e aqueles de maior risco, como os de pacientes com comorbidades.
Além de testado em células humanas hepáticas e pulmonares in vitro, o efeito da substância na redução da carga viral e na proteção contra lesões pulmonares foi reproduzido em diferentes modelos animais, acrescentaram ainda os pesquisadores da fundação.
Em comunicado, a Fiocruz informou ainda que o projeto contou com financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, por meio de encomenda tecnológica ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Empresa Brasileira de Inovação Industrial (Embrapii). Teve ainda a colaboração do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).