O Globo, n 32.365, 18/03/2022. Política, p. 06

Marília Arraes deve deixar PT e pode enfrentar sigla na eleição

Sérgio Roxo


Segundo lugar na corrida pela prefeitura do Recife, deputada negocia com o Solidariedade para concorrer ao Senado

Uma das principais lideranças jovens do PT, a deputada federal Marília Arraes (PE) deve deixar o partido nos próximos dias e, dependendo da configuração, poderá enfrentrar um petista na disputa pelo Senado. Além disso, a possível saída da parlamentar de 37 anos da legenda, expõe ainda mais a dificuldade que a sigla tem de renovar seus quadros.

O destino mais provável de Marília é o Solidariedade. O partido pode tanto se manter na aliança encabeçada pelo PSB em Pernambuco — que terá o deputado federal Danilo Cabral como candidato a governador — quanto se juntar à chapa liderada pela prefeita de Caruaru, Raquel Lyra (PSDB). Como condição para a sua filiação, Marília quer a liberdade para apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida ao Planalto.

Caso o Solidariedade opte por se juntar a Raquel Lyra, Marília pode disputar o Senado contra um candidato do PT. O Solidariedade, porém, tem expectativa de fazer uma composição com Cabral para ficar com o posto de candidato ao Senado na chapa liderada pelo PSB. Nesse caso, a deputada roubaria uma vaga do PT.

Neta do ex-governador Miguel Arraes (1916-2005), Marília começou a carreira política no PSB. Foi vereadora por três mandatos no Recife. Entrou em conflito com o grupo do ex-governador Eduardo Campos, seu primo, e acabou migrando para o PT em 2016.

EMBATES ANTERIORES

Já pelo PT, Marília lançou-se pré-candidata ao governo do estado em 2018. A sua retirada da disputa foi usada como trunfo pelo partido e por Lula para evitar o apoio do PSB a Ciro Gomes (PDT) na eleição presidencial daquele ano. Marília era vista como ameaça para a reeleição do governador Paulo Câmara (PSB).

Dois anos depois, Marília disputou a prefeitura do Recife e chegou ao segundo turno, quando foi derrotada por João Campos (PSB), filho de Eduardo Campos e seu primo. A disputa teve troca de acusações duras entre os partidos.

A deputada se desgastou dentro do PT no começo do ano passado, quando concorreu — e foi eleita — ao posto de segunda-secretária da Câmara, num acordo com o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), e sem o aval da cúpula partidária.

Neste ano, ela alimentava a expectativa de concorrer ao governo, mas o acordo com o PSB impediu que o projeto fosse levado adiante. A deputada passou então a trabalhar para ser candidata ao Senado na chapa.

A cúpula do PT pernambucano, liderado pelo senador Humberto Costa, resiste, porém, à indicação de Marília com o argumento de que o PSB a rejeita em virtude dos ataques de 2020. Os aliados da deputada dizem que esse desconforto é restrito ao grupo mais próximo do prefeito João Campos e não atinge todo o PSB. Costa defende o nome do deputado Carlos Veras (PTPE) para concorrer ao cargo. A indicação de Marília para o Senado, dizem aliados, poderia ajudar a impulsionar a candidatura de Danilo Cabral, que nunca disputou eleição majoritária. Marília é a segunda deputada mais jovem da bancada federal do PT.