O Globo, n 32.365, 18/03/2022. Mundo, p. 17

Pichações nas portas e ameaças de prisão a dissidentes



Discurso de Putin já começa a produzir efeitos para opositores da guerra, alvo de intimidações, pressão e ações legais
Alertas feitos com pichações nas portas de ativistas em Moscou. Uma blogueira de comida ameaçada com até 15 anos de prisão por “desacreditar” o Exército da Rússia. Um pedido para afastar um ex-integrante do governo por “traição” por se colocar contra à guerra na Ucrânia.

Horas depois do discurso do presidente da Rússia, Vladimir Putin, na quarta-feira, Dmitry Ivanov, um ativista de Moscou, disse que sua mãe se deparou com uma pichação na porta de seu apartamento: “Não traía a mãe pátria, Dima.”

A pichação trazia vários dos símbolos do “Z”, usado para demonstrar apoio ao que o Kremlin chama de “operação militar especial” para desarmar e “desnazificar” a Ucrânia. Os símbolos podem ser vistos nas laterais de blindados e tanques russos na guerra.

Ivanov, que protestou contra a guerra, disse que ele não tem ideia de quem está por trás da pichação, mas que tem conhecimento de pelo menos três pessoas, incluindo ativistas e um jornalista, que tiveram suas portas vandalizadas da mesma forma na noite de quarta.

—Não sei quais os objetivos deles: assustar, não assustar, ou só bagunçar sua mente. É difícil nos assustar com tais ações, estamos acostumados com esse tipo de atenção — disse o homem de 22 anos à Reuters. —É possível que essa ação seja para complementar o discurso de Putin,acho que é possível. Especialmente quando observamos que essas marcações foram feitas de maneira bem improvisada.

Logo depois da fala de Putin, o Comitê de Investigações anunciou o nome da primeira pessoa, uma blogueira de comida, acusada formalmente de espalhar “falsas informações” sobre o Exército russo em seu blog. Esse crime, previsto em lei adotada no dia 4 de março, pode ser punido com até 15 anos de prisão, e foi tipificado depois de uma série de protestos contra a guerra.

À Reuters, Veronika Belotserkovskaya, que vive no Sul da França, se disse não surpresa ao aparecer como acusada, uma vez que se enquadra na imagem da pessoa que o russo médio pode odiar.

—Sabe, há essa mulher gorda e mimada vivendo na Côte D’Azur, na Provença ou na Itália, que produz foie gras e come lagostas, que também ousa falar de frivolidades. Eu tenho todas as qualidades que uma pessoa normal consideraria nojentas —disse.

Depois do discurso de Putin, um integrante da cúpula do partido governista Rússia Unida pediu a saída imediata do ex-vice-premier Arkady Dvorkovich da chefia de uma fundação que promove a inovação econômica. Dvorkovich, que também lidera a Federação Internacional de Xadrez, condenou a guerra em comentários à imprensa ocidental.

—Ele fez sua escolha —disse o senador Andrei Turchak, secretário-geral do Rússia Unida. —Isso é uma verdadeira traição nacional, o comportamento de quinta coluna, sobre o qual o presidente falou.