O Globo, n 32.366, 19/03/2022. Economia, p. 29
Desemprego cai para 11,2%, mas renda despenca
Carolina Nalin
Taxa em janeiro foi a menor para o período desde 2016. Salário recua 9,7% em um ano, e especialistas estimam que, com inflação em alta, cenário não deve mudar. Reação do emprego tende a ser menor nos próximos meses, segundo economistas
Puxada pelo avanço do emprego formal, a taxa de desemprego no Brasil caiu para 11,2% no trimestre encerrado em janeiro deste ano, totalizando 12 milhões de desempregados. É a menor taxa para o período desde 2016. No entanto, em um ano, a renda do trabalhador despencou 9,7%, para R$ 2.489, o menor nível em trimestres comparáveis. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgados ontem pelo IBGE. O resultado do trimestre mostra melhora em relação ao fim do ano passado, quando a taxa ficou em 13,2%, com 13,9 milhões de desempregadas. E a geração de 1,4 milhão de vagas foi sustentada pelo emprego formal, que representou 79% das ocupações criadas no trimestre.
A coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy, explica que a expansão do mercado de trabalho pela ocupação formal é um movimento distinto ao que se tem visto até agora. A abertura de vagas se deu em vários setores. Desde o comércio, passando pela indústria e pela construção, até o setor de serviços prestados às famílias e às empresas. Em alojamento e alimentação — que reúne hotéis, bares e restaurantes, fortemente afetados pela pandemia — a ocupação subiu 27,1% em um ano, o equivalente a mais 1,1 milhão de pessoas empregadas. Economistas preveem, porém, que a recuperação do mercado de trabalho deve perder força este ano diante de inflação e juros altos, baixo crescimento, além de impactos na economia global da guerra na Ucrânia.
12 MILHÕES SEM CARTEIRA
Rodolfo Margato, economista da XP, estima que a taxa de desemprego continue a cair até o fim do primeiro semestre. A partir do segundo semestre, a reação perde força e a perspectiva é de estagnação.
—Já percebemos sinais de perda de velocidade em janeiro. Há uma melhoria gradual que deve perder tração ao longo de 2022, e o mercado deve andar de lado. A taxa de desemprego deve atingir 11% no fim do ano e 10,8% em 2023, e só tem potencial para romper a barreira dos 10% no fim de 2023 ou começo de 2024. Apesar dos sinais de melhora no emprego protegido, o número de conta própria subiu 10,3% em um ano e chegou a 25,6 milhões:
— Só o contingente do empregado sem carteira chegou a 12,4 milhões em 2022, ante 9,1 milhões em 2020 —diz Adriana. O aumento no número de pessoas empregadas veio junto com a queda no salário. Caiu 1,1% na comparação com o trimestre anterior e 9,7% ante igual período do ano passado, ficando em R$ 2.489 de média.
É o menor rendimento médio entre trimestres comparáveis. A mínima da série, iniciada em 2012, foi em dezembro (R$ 2.465). Adriana explica que a queda no rendimento foi menor do que a ocorrida no trimestre passado — quando foi de 4,5% —e que isso pode estar associado ao aumento do emprego com carteira. Com a inflação sem dar trégua, acima de 10% em 12 meses, ainda sem captar o impacto da alta da gasolina e do diesel, os salários devem continuar em queda.
— Já observamos trajetória de queda na renda, e essa pressão adicional sobre o preço do petróleo mantém a inflação elevada por mais tempo e impede uma reversão dessa trajetória no curto prazo. Talvez a gente observe uma melhoria no fim do ano, com risco de ser apenas em 2023 —avalia Margato.
LONGO PERÍODO EM 2 DÍGITOS
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, estima que a taxa de desemprego volte a subir no segundo semestre. — A taxa de juros já está num patamar contracionista e com impactos na atividade. Já vemos alguma desaceleração da atividade e isso vai começar a bater na taxa de desemprego. Alberto Ramos, diretor de Macroeconomia do Goldman Sachs para a América Latina, afirma, em relatório, que a taxa deve ficar em dois dígitos por “longo período”. Além do baixo crescimento, ele lembra que há 27,8 milhões de ocupados que trabalham menos do que gostariam.