O Globo, n 32.366, 19/03/2022. Economia, p. 32
Abismo digital no país reduz renda dos brasileiros
João Sorima Neto
Pesquisa mostra que apenas um terço da população está totalmente conectada
A pandemia de Covid-19 acelerou a digitalização em diversas áreas no país, mas o Brasil tem dificuldade em avançar nesse processo já que o acesso à internet é desigual entre a população. Além disso, os equipamentos disponíveis não são adequados para a formação digital. Menos de um terço da população pode ser considerada totalmente conectada, num abismo digital.
O resultado é que esse cenário trava a produtividade e produção de riqueza no Brasil e deixa um déficit de profissionais para atuar no mercado de trabalho digitalizado, com impacto negativo na renda.
Estas são algumas das conclusões do estudo “O abismo digital no Brasil”, elaborado pela consultoria PwC e pelo Instituto Locomotiva.
— Teremos um déficit de 537 mil profissionais de tecnologia até 2025, mas esse número pode ser ainda maior com os impactos da pandemia. Isso acontece em todo o mundo, mas no Brasil é mais gritante. Significa que teremos que investir três, quatro vezes mais que países como EUA, Reino Unido e Cingapura para formar esses profissionais —diz Marco Castro, sócio-presidente da PwC Brasil.
33,9 MILHÕES SEM CONEXÃO
Ele alerta que a falta desses profissionais cada vez mais reduz a participação do Brasil no ranking de atratividade de investimentos internacionais. O levantamento criou o Índice de Privação On-Line, que permitiu definir quatro perfis de usuários brasileiros de internet. Os números mostram a desigualdade de acesso à internet. Segundo o índice, os usuários plenamente conectados somam 49,4 milhões de pessoas. Em média, eles acessam informações na internet 29 dias por mês, estão nas regiões Sul e Sudeste do país, usam notebooks, são escolarizados, brancos e pertencem às classes A e B. Já os parcialmente conectados somam 44,8 milhões de brasileiros e acessam dados na web 25 dias por mês.
O que preocupa é que há uma legião de 75,7 milhões de brasileiros subconectados e desconectados. Os subconectados somam 41,8 milhões de pessoas, estão nas regiões Norte e Nordeste, pertencem às classes D e E e são negros. Os totalmente desconectados são majoritariamente homens, analfabetos, das classes C, D e E e idosos. São 33,9 milhões.
—Com menos acesso à internet, temos profissionais menos preparados, com menor renda. Não se pode normalizar essa desigualdade. O país precisa quebrar esse círculo vicioso. Profissionais conectados ganham mais, consomem mais, e a economia gira —diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. O investimento das empresas em tecnologia é importante, mas é preciso que venha acompanhado de políticas públicas de inclusão digital. Sem isso, mostra o trabalho da PwC/Locomotiva, o mercado de trabalho do país tende a caminhar para mais informalidade.
—Ações isoladas têm impacto menor. Não adianta levar 5G para a periferia das grandes cidades, se as escolas públicas não conseguirem captar o sinal ou não houver uma política que permita o acesso da população de menor renda —avalia Meirelles. Marco Castro observa que quando se investe em tecnologia aplicada, o retorno é exponencial. Ele cita por exemplo as start-ups que focam em tecnologia e conseguem fazer disrupções em negócios tradicionais.
— A inclusão digital vai iniciar uma onda de crescimento que vai tirar o país da armadilha de renda média —afirma Castro.