O Globo, n 32.366, 19/03/2022. Economia, p. 28
Entregadores do iFood cruzam os braços no Rio
Leticia Lopes, Ivan Martínez-Vargas e Raphaela Ribas
Empresa anunciou reajuste da taxa por entregas, mas trabalhadores dizem que valor não dá para um litro de gasolina
Um coletivo de entregadores de aplicativo que reúne cerca de 200 pessoas fez uma paralisação no Rio ontem. O grupo se reuniu no entorno de dois shoppings e impediu que entregadores buscassem ou fizessem entregas. O protesto é contra o aumento nos preços dos combustíveis. Eles pedem também melhorias nas taxas de entrega pagas pelos apps. O movimento ocorre no mesmo dia em que o iFood anunciou um reajuste na taxa paga aos entregadores a partir de 2 de abril, conforme antecipado pela coluna Capital do GLOBO. A empresa prometeu uma correção de 12,9% para toda a base de parceiros, passando de R$5,31 para R$6. Ela indica uma transferência de até R$ 3,2 bilhões do caixa da empresa para entregadores ao longo dos próximos 12 meses.
Em paralelo, a empresa ajustou também a taxa mínima por quilômetro rodado, que impacta as viagens mais longas, com aumento de 50%, subindo de R$ 1 para R$ 1,50, de forma definitiva. Os entregadores, por sua vez, dizem que a nova taxa não cobre nem um litro de combustível para os que trabalham motorizados.
—Para nós que trabalhamos de moto, às vezes cai uma corrida de 5km, 10km, e duas entregas no mesmo lugar, mas o iFood só paga uma tarifa. Uma sai de graça. E o caminho até buscar o pedido, também. É injusto —diz Yago Malaquias, de 20 anos.
NÃO PAGA A GASOLINA
Outro entregador que preferiu não se identificar afirma que o reajuste não paga um litro de gasolina “e não acompanha o aumento dos combustíveis. Não compensa”. Segundo os entregadores, houve paralisações nos bairros de Ipanema, Copacabana, Botafogo, Méier, Cachambi, Tijuca e Vila Isabel. Na Tijuca, os entregadores se concentraram nos fundos do Shopping Tijuca, onde recebem os pedidos de bares e restaurantes. Os manifestantes chegaram a fechar a via com bicicletas, mas depois de alguns minutos liberaram o trânsito. Houve confusão, e a Polícia Militar foi chamada. Eles também reclamam que o sistema de divisão das entregas pelo aplicativo não compensa. Os entregadores são divididos em duas categorias. Na “nuvem” estão os que trabalham onde querem e no horário que desejam, sendo chamados para entregas próximas de onde estão. No modelo de “operador logístico”, trabalham em um determinado horário e numa região. Segundo a categoria, porém, o aplicativo prioriza o segundo sistema, e quem fica em “nuvem” não é chamado.
Em nota, o iFood negou que o reajuste tenha qualquer relação com a manifestação, ressaltando que a empresa “respeita o direito de manifestação e esclarece que mantém o compromisso de diálogo aberto com os entregadores para buscar melhorias e oportunidades para os profissionais”. O documento ainda cita os reajustes das taxas e afirma que criou o“código de validação da entrega” e que oferece “seguros contra acidentes pessoais e lesão temporária (a única empresa a oferecer essa cobertura)”. “Desde o início da pandemia, o iFood já investiu mais de R$ 160 milhões em iniciativas de apoio aos entregadores”, afirma a empresa em nota. Sobre os sistemas “OL” e “Nuvem”, a empresa afirma não fazer predileção por nenhum modelo de entrega “por acreditar que os existentes possuem características distintas e que se complementam para entregar a melhor experiência para o usuário ”.
Nas redes sociais, clientes reclamaram de pedidos atrasados e cancelados ou da dificuldade de cancelar pedidos em razão da paralisação. Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, associação que representa bares e restaurantes, diz que, a princípio, o movimento dos entregadores do iFood aconteceu apenas no Rio. Não houve relatos em outras cidades. Entretanto, em alguns municípios, como Belo Horizonte, há mobilizações sendo feitas para pedir aumento da taxa mínima do quilômetro rodado. No Rio, a seccional da associação disse ontem que era cedo para mensurar o impacto da manifestação.
Para a empresária Monique Mesquita, dona da Casa das Massas e à frente de seis dark kitchens funcionando das 10h às 23h nos bairros da Zona Sul, além de Centro e Tijuca, o efeito é visível. E permanecerá no longo prazo. Mesmo com motoboys parceiros, 99% do delivery são feitos pelo iFood:
—Ainda não consegui prejuízo de hoje, mas tivemos vários atrasos, que é um problema também. Porque aí as pessoas dão avaliação ruim ao restaurante. Com isso, nossa visibilidade cai e, com ela, nossos pedidos — conta Monique, que planeja começar a atender presencialmente para reduzir a dependência do app.