Valor Econômico, v. 23. n. 5675, 24/01/2023, Brasil, A4
Brasil e Argentina dão início a projeto de moeda comum
Fabio Murakawa e Larissa Garcia
Brasil e Argentina assinaram nesta segunda-feira, 23, memorando de entendimento para criação de uma moeda comum virtual para facilitar as trocas comerciais entre os dois países. O anúncio foi feito pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Alberto Fernández, em um comunicado conjunto preparado durante a visita do presidente brasileiro a Buenos Aires.
O memorando foi firmado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o ministro da Economia da Argentina, Sergio Massa. O plano prevê grupo de trabalho para discutir a viabilidade de uma unidade comum de troca, já que o peso argentino é visto como entrave para avançar o comércio bilateral.
A nova moeda será digital, sem uso corrente entre as populações. Para economistas, no entanto, a nova divisa não deveria ser o foco da política para impulsionar as trocas comerciais.
“Decidimos avançar nas discussões sobre uma moeda sul-americana comum, que possa ser usada tanto para os fluxos financeiros como comerciais, reduzindo os custos operacionais e nossa vulnerabilidade externa”, afirma a carta conjunta de Lula e Fernández.
Apesar das críticas de especialistas, Lula defendeu a ideia em pronunciamento ao lado do presidente argentino, na Casa Rosada.
“Se dependesse de mim, teríamos comércio exterior sempre na moeda dos nossos países para não depender do dólar. Por que não criar uma moeda comum no Mercosul, no Brics? Eu acho que com o tempo isso vai acontecer, é necessário que isso aconteça”, disse Lula. “Pode-se fazer acordos, estabelecer moedas para comércio que os BCs façam acerto de contas.”
Na véspera, uma entrevista de Massa ao jornal britânico “Financial Times” gerou confusão em torno do projeto. O diário britânico afirmou que, com a nova divisa, seria criada a segunda maior união monetária do mundo, atrás apenas das zona do euro.
Esse ruído na comunicação levou Lula, Fernández, Haddad e Massa a dedicar boa parte de suas declarações públicas desta segunda em Buenos Aires a deixar claro que real nem peso vão acabar.
“Quero esclarecer, porque a desinformação gera dúvidas e pode acabar gerando incerteza. A decisão de ambos os governo é começar a trabalhar, dar o primeiro passo de um longo caminho, com o objetivo de criar uma moeda comum de ambos os países. Um instrumento para aprofundar o sistema de comércio entre os países na região e no Mercosul”, disse Massa em entrevista coletiva. “Pretendemos colocar em marcha, respeitando a independência dos BCs, mecanismos mais largos de arbitragem que nos permitam desenvolver o comércio bilateral.”
Haddad observou que o Brasil perde mercado para a China, por exemplo, devido às condições de crédito. A moeda comum, disse, é uma das iniciativas que poderão permitir a ampliação de transações comerciais entre os dois países.
“Hoje, o fechamento da conta externa Brasil-Argentina é de 30 dias. Quem está dando crédito de longo prazo para a Argentina está levando o mercado de produtos industriais brasileiros”, disse Haddad. “A partir de fevereiro, vamos resolver um sistema de garantia que permita ao Brasil estender esse prazo.”
Presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro avalia a discussão sobre moeda comum como “louvável”, visto que a Argentina enfrenta dificuldade crescente para viabilizar importações e isso afeta diretamente as vendas brasileiras ao país. Castro alerta, contudo, que a medida é difícil de ser viabilizada e não teria efeito imediato.
“’Não é de hoje que se busca uma solução sobre a moeda argentina. Até agora, eles não tiveram uma experiência exitosa, então tenho dúvidas sobre como isso será viabilizado. E que também não terá resultado imediato”, pontuou.
Há “esperança” no setor de que avance qualquer iniciativa que possa ampliar a relação comercial entre os dois países, segundo o presidente da AEB, porque o patamar de exportações do Brasil ao país vizinho caiu a nível inferior ao praticado há 12 anos. Neste sentido, poderia ter efeito imediato e efetivo a criação de linhas de crédito a compradores argentinos.
“Somos 100% favoráveis a criar linha de crédito porque ajuda a ambos. Hoje eles precisam importar e não têm como comprar, o resultado é imediato”, observou.
Para Joelson Sampaio, professor de economia da FGV, a ideia de uma moeda única, similar ao euro, está “distante da realidade”, mas uma moeda comum para fins comerciais parece ser “mais factível”.
“O projeto da moeda única é mais desafiador e distante de ser realidade, temos economias muito distintas. A economia argentina é muito diferente da brasileira e tem muitas questões para serem acomodadas, como inflação elevada”, pontuou.
Para ele, a moeda comum para comércio exterior também tem desafios, embora seja mais viável.
“Talvez seja mais vantajoso para a Argentina do que para o Brasil, mas pode fortalecer economias da América Latina, o que também pode ser positivo no geral”, avaliou Sampaio.