O Globo, n 32.366, 19/03/2022. Brasil, p. 20
Bolsonaro, de medalha, prega garimpo em reserva
Daniel Gullino
Presidente defende projeto que autoriza medida depois de receber condecoração do Mérito Indígena, que indigenista devolveu
O Ministério da Justiça entregou ontem a Medalha do Mérito Indigenista ao presidente Jair Bolsonaro, cuja política para a área é criticada por entidades de defesa dos povos originários, e a outras autoridades. Bolsonaro vestiu um cocar na cerimônia e disse que deseja que os indígenas se sintam “exatamente como nós”, tese que defende desde a campanha eleitoral. — Vocês chegaram aqui bem antes de nós. Mas cada vez mais nos integramos — discursou Bolsonaro na cerimônia a líderes indígenas presentes à cerimônia. O presidente da Funai, Marcelo Xavier, agradeceu em seu discurso a presença de quatro líderes na cerimônia: Libiana Guajajara, Maria Aureni Fulni-ô, Irisnaide Macuxi e Shirley Baré. De acordo com Xavier, havia representantes de 22 etnias, como baniwa, kayapó, terena, surui e xavante. A concessão da medalha foi anunciada na quarta-feira.
A decisão de sua entrega foi do ministro da Justiça, Anderson Torres, que também se incluiu como homenageado, ao lado de outros nove colegas de ministério. A condecoração é um “reconhecimento pelos serviços relevantes em caráter altruísticos, relacionados com o bem-estar, a proteção e a defesa das comunidades indígenas”, e foi concedida pouco depois de a Câmara aprovar urgência para discutir um projeto que legaliza a exploração de várias atividades econômicas que afetam o meio ambiente, como o garimpo, em reservas indígenas. O governo federal é a favor do projeto. Durante o evento, Bolsonaro fez referência à mudança que é discutida na Câmara, ao dizer querer que os indígenas “façam em suas terras exatamente o que nós fazemos na nossa”.
— Tenho certeza de que, ao longo dos últimos três anos, nos aproximamos muito, mas muito mais que em tempos anteriores. Nós queremos (vocês) ao nosso lado — disse o presidente aos representantes dos povos originários que estavam na cerimônia.
Ainda na campanha eleitoral, Bolsonaro disse que não demarcaria “nem um centímetro a mais” de terras indígenas. A paralisia põe em risco a preservação dessas terras, e parte de uma delas, no Mato Grosso, chegou a ser leiloada como fazenda para pagamento de dívidas judiciais, como mostrou esta semana O GLOBO. O negócio não foi concretizado porque a empresa compradora desistiu da aquisição. Depois do anúncio da homenagem, o sertanista Sydney Possuelo, ex-presidente da Funai, devolveu a comenda recebida em 1987.