O Globo, n 32.366, 19/03/2022. Mundo, p. 36

BAIXANDO A TEMPERATURA

André Duchiade


BIDEN E XI ABRANDAM TENSÃO E PEDEM SAÍDA DIPLOMÁTICA

Após uma semana de muita tensão devido a uma suposta possibilidade de ajuda militar chinesa à Rússia na guerra na Ucrânia, a reunião por videoconferência entre os presidentes da China, Xi Jinping, e dos Estados Unidos, Joe Biden, terminou ontem com a adoção por ambas as partes de um tom mais brando. Os comunicados públicos de cada um dos países sobre o encontro, emitidos separadamente, condenam a guerra e pedem soluções negociadas para o conflito.

A mudança do lado chinês foi mais perceptível. Xi, que recentemente anunciou uma parceria “sem limites” com Moscou, pediu o fim do conflito e chamou a invasão da Ucrânia não de “operação militar especial”, como determinou em seu país — sob ameaça de prisão para quem desobedecer — o presidente da Rússia, Vladimir Putin, mas de “guerra”:

—As principais prioridades agora são continuar o diálogo e as negociações, evitar baixas civis, prevenir uma crise humanitária, cessar os combates e acabar com a guerra o mais rapidamente possível — disse Xia Biden na videoconferência, citado por agências da Ucrânia é algo que não queremos ver.

CONVERSA OTAN X RÚSSIA

Xi também disse que os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) precisam conversar com a Rússia para encontrar uma saída política para o conflito. A China já pedira antes o envolvimento diplomático de outros países na mediação da guerra. Até aqui, houve apenas conversas oficiais entre Moscou e  Kiev, sem negociações diplomáticas entre os EUA e seus aliados e o governo russo.

— Todas as partes devem apoiar conjuntamente o diálogo e as negociações RússiaUcrânia — disse Xi, segundo as agências oficiais chinesas.

— Os EUA e a Otan também devem conduzir conversas com a Rússia para resolver o cerne da crise e as preocupações de segurança tanto da Rússia quanto da Ucrânia. A China se manifestou sobre a reunião quase quatro horas antes da Casa Branca, e a pressa denota que queria instituir um tom de redução de tensões, a ser seguido pelo Departamento de Estado. Em nota, a Casa Branca diz que Biden “descreveu as implicações e consequências se a China fornecer apoio material à Rússia ao realizar ataques brutais contra cidades e civis ucranianos”.

O presidente também apresentou as posições dos EUA e de seus parceiros sobre a crise e detalhou as sanções à Rússia, “ressaltando seu apoio a uma solução diplomática para a crise”. Esta foi a quarta conversa oficial entre Biden e Xi desde que o americano assumiu a Casa Branca no ano passado, e a primeira desde novembro. Assim como naquela ocasião, “os dois líderes também concordaram sobre a importância de manter linhas de comunicação abertas, para gerenciar a competição entre nossos dois países”, informou a Casa Branca.

Xi também foi nessa linha, e disse a Biden que a China e os EUA, na condição de maiores economias mundiais, devem fazer esforços pela paz internacional, e que a competição entre os países não pode evoluir para um confronto.

— Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e como as duas maiores economias do mundo, cabe a nós não apenas orientar as relações China-EUA pelo caminho certo, mas assumir nossas responsabilidades internacionais e trabalhar pela paz e tranquilidade no mundo — afirmou Xi. — As relações entre Estados não podem avançar para o estágio de confronto, e conflitos e confrontos não são do interesse de ninguém.

Antes da reunião, houve acentuados sinais de hostilidade entre as partes, com ambos os países querendo chegar ao encontro em uma posição de força. Esperava-se que Biden fosse ameaçar Xi, dizendo que Pequim pagará um preço alto se apoiar as operações militares da Rússia. Na quinta-feira, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, disse que os EUA estavam preocupados com a possibilidade de a China ajudar a Rússia na guerra, mas Washington ainda não ofereceu evidências de que Pequim sinalizou tal disposição. Moscou nega a acusação, e a Chancelaria chinesa a classifica como “desinformação”.

ADVERTÊNCIA SOBRE TAIWAN

Na segunda-feira, uma reunião de sete horas em Roma entre o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, e o principal diplomata da China, Yang Jiechi, foi descrita como “dura” e “intensa” por autoridades americanas. Sullivan disse que manifestou “profundas preocupações” na reunião e ameaçou seu homólogo chinês com “consequências”.

Na quinta-feira, Zhao Lijian, porta-voz da Chancelaria chinesa, negou que o país esteja desconfortável com a pressão do Ocidente: — Aqueles que realmente se sentem desconfortáveis são os países que pensam que podem dominar o mundo depois de vencerem a Guerra Fria — disse Zhao em entrevista coletiva. Poucas horas antes da reunião, o porta-aviões chinês Shandong navegou pelo Estreito de Taiwan, perto do destróier americano USS Ralph Johnson. Xi fez advertências a Biden sobre a ilha:

— Alguns indivíduos nos Estados Unidos estão enviando os sinais errados para as forças pró-independência em Taiwan, e isso é muito perigoso — disse Xi a Biden.

— Se a questão de Taiwan não for tratada adequadamente, terá um impacto subversivo na relação entre nossos dois países. Biden, segundo o comunicado americano, afirmou que os EUA não pretendem mudar o reconhecimento da soberania de Pequim sobre a ilha, posição oficial que país mantém desde 1979.