O Globo, n 32.366, 19/03/2022. Política, p. 06

Bloqueio do Telegram é baque para Bolsonaro

Lucas Mathias, Mariana Muniz, Bruno Góes e Alice Cravo


Aplicativo é um dos principais canais de comunicação do presidente com seus apoiadores, e suspensão abala estratégia para reeleição. Titular do Planalto classificou decisão de Moraes como 'inadmissivel'


O bloqueio do Telegram no Brasil, determinado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), representa um baque na estratégia eleitoral do presidente Jair Bolsonaro, que tentará ser reconduzido ao cargo em outubro. Ele tem no aplicativo um dos principais canais de comunicação com seus apoiadores. Só em seu perfil oficial, o presidente conta com pouco mais de um milhão de seguidores. Somando os perfis administrados por seus filhos, a família acumula cerca de 1,3 milhão de inscritos no Telegram.

O alcance de Bolsonaro nessa plataforma é bem maior do que os demais pré-candidatos ao Palácio do Planalto. Com uma filosofia de mínima moderação, a ferramenta é considerada um terreno mais fértil a campanhas de desinformação e discurso de ódio. Ao contrário do WhatsApp, que limita grupos a 256 membros e restringe o alcance de mensagens replicadas muitas vezes, o Telegram permite grupos com 200 mil pessoas e compartilhamento irrestrito. Já os canais, ferramentas para transmitir mensagens, têm número ilimitado de inscritos. O link para o canal de Bolsonaro na plataforma é frequentemente compartilhado em seus perfis, na tentativa de que seus seguidores em outras redes migrem para o Telegram. Desde o início deste ano, Bolsonaro publicou 23 tuítes deste tipo. No dia 16 de fevereiro, por exemplo, um post em sua conta no Twitter pedia inscrições no aplicativo russo. Segundo a publicação, lá é possível ter “acesso a ações que querem a todo custo esconder de você”. No Telegram, o presidente costuma divulgar entregas de seu governo e feitos de seus ministros, além de compartilhar publicações de seus filhos. Ontem, Bolsonaro classificou como “inadmissível” o bloqueio da ferramenta.

—Olha as consequências da decisão monocrática de um ministro do STF. É inadmissível uma decisão dessa natureza. Porque não conseguiu atingir duas ou três pessoas que deveriam ser banidas do Telegram, ele atinge 70 milhões de pessoas —disse o presidente em um evento no Acre.

REDE DE APOIO

Para além da família Bolsonaro, o Telegram tem papel importante na rede de apoio político do presidente. A deputada Carla Zambelli (PLSP), por exemplo, conta com 107 mil inscritos em seu canal, enquanto a deputada Bia Kicis (União-DF) soma 41 mil seguidores em seu perfil. Outro exemplo que ressalta essa relevância é o do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos. Ele usava a plataforma como alternativa desde que teve seus perfis bloqueados, no Brasil, nas outras redes sociais, como Twitter, Facebook e YouTube. No fim de fevereiro, no entanto, seus principais canais no aplicativo russo também foram suspensos e, ainda que ele tenha aberto contas reservas, perdeu grande parte de seus seguidores. Entre os postulantes ao Planalto nas eleições deste ano, Bolsonaro é, de longe, o que mais sentirá o impacto da decisão do ministro Alexandre de Moraes. É ele o mais popular, seguido pelo ex-presidente Lula, que tem 48,5 mil inscritos. Ciro Gomes (PDT) vem em seguida, com 19 mil seguidores, na frente do exjuiz Sergio Moro (Podemos), que tem 5 mil.

O governador de São Paulo João Doria (PSDB) e a senadora Simone Tebet (MDB-MS) não têm conta oficial na plataforma. Para Pedro Bruzzi, sócio da consultoria Arquimedes, o bloqueio da plataforma tende a prejudicar mais Bolsonaro que os outros presidenciáveis, já que o presidente tem vantagem considerável no número de seguidores.

— É um canal de coordenação e de divulgação de argumentos e narrativas muito bem estabelecido, a ponto do próprio Bolsonaro divulgar o canal dele no Telegram em seu perfil no Twitter. Não divulgaria se não tivesse uma atuação planejada. Além disso, é um canal de comunicação direta em que ele consegue falar com um volume muito grande de pessoas sem a interferência de outros —disse ele.

Ao avaliar esse impacto, Nina Santos, que é coordenadora acadêmica do projeto Desinformante, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), chama a atenção para a importância do Telegram como um facilitador da circulação de conteúdo nas redes. Ela explica que, como a plataforma não conta com políticas rígidas de moderação, bolsonaristas a utilizam para divulgar links de vídeos privados no YouTube, que só podem ser acessados com aquele endereço, para evitar que sejam removidos.

REAÇÃO DO GOVERNO

Ontem, o ministro da Justiça, Anderson Torres, disse que o governo federal está tomando providências para restabelecer o funcionamento do Telegram no Brasil. O bloqueio atendeu a um pedido da Polícia Federal, que é vinculada ao Ministério da Justiça. “Milhões de brasileiros sendo prejudicados repentinamente por uma decisão monocrática. Já determinei a diversos setores do @JusticaGovBR que estudem imediatamente uma solução para restabelecer ao povo o direito de usar a rede social que bem entenderem”, escreveu Torres no Twitter. Relator do projeto que regula as plataformas digitais e criminaliza a disseminação em massa de fake news, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) disse que a suspensão do Telegram pode servir de estímulo para que a ferramenta cumpra o ordenamento legal do Brasil.

— É uma decisão esperada. Não é razoável que uma empresa atue no Brasil, com 60 milhões de usuários, à revelia das leis do país. É uma decisão dura, grave, mas acredito que pode servir de estímulo para que o aplicativo possa cumprir as leis do país. Na Alemanha, o Telegram já teve que passar por mudanças por causa das exigências daquele país. Espero que ocorra o mesmo aqui —disse Orlando.