Valor Econômico, v. 23. n. 5678, 27/01/2023, Brasil, A6
Estudos e aprovação mais rápidos são legado da pandemia
Rafael Vazquez
Além das novas tecnologias contidas no desenvolvimento das vacinas, a pandemia tende a deixar outros legados que ajudaram a agilizar o processo de estudos e aprovação de imunizantes no futuro. Tratam-se de inovações que vão desde a postura da comunidade científica, que tende a permanecer mais aberta e colaborativa, até a aprendizagem obtida para trabalhar com dados e inteligência artificial, sem esquecer da disposição das agências regulatórios para analisar os pedidos de autorização com mais agilidade.
“Não houve só uma inovação. Durante a pandemia, tivemos que inovar em várias coisas que repercutem de alguma forma no desenvolvimento de drogas e novas vacinas e não tem com achar que podemos retroceder ao que era antes”, diz a diretora de desenvolvimento e inovação do Instituto Butantan, Ana Marisa Chudzinski-Tavassi.
“Tivemos que inovar para dar respostas rápidas e conhecer o vírus da covid, sequenciar rapidamente. Também aprendemos a trabalhar melhor com análise de dados. Na forma de fazer negócios, na forma de fazer parcerias e na proteção de patentes. Por último, mas não menos importante, na forma das agências regulatórias liberarem com mais velocidade os resultados. É uma inovação também, pois por conceito inovação é tudo que melhora as nossas vidas. É um passo que não tem volta”, completa Chudzinski-Tavassi.
Marco Krieger, vice-presidente de produção, inovação e saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), comenta que a pandemia ensinou a indústria como um todo a trabalhar com processos que podem andar paralelamente, em vez de esperas longas de análise de cada etapa. “Houve um paralelismo inédito na avaliação dos dados científicos. Ao mesmo tempo que eram gerados, eram analisados prontamente, enquanto outros dados de fases posteriores dos estudos clínicos já eram feitos”.
Krieger conta que, normalmente, fazia-se os estudos clínicos de fase 1 e esperavam um ano e meio para ter o resultado. Depois, começava a fase 2 com o mesmo tempo de prazo. Na fase 3, a última, mais um ano e meio. Ou seja, um process de quase cinco anos. Na pandemia, no caso da AstraZeneca, vacina que a Fiocruz assumiu a produção no Brasil, a fase 1 iniciou em abril e logo depois, em maio, começou a fase 2, concluindo a fase 3 em junho do mesmo ano de 2020. “Um cenário adequado pela emergência, mas sempre com um acompanhamento dos dados de segurança bastante grande.”
No caso de futuras vacinas contra o câncer, porém, o processo tende a ser mais lento do que foi para a covid, embora todo o processo de geração de dados e análise por parte das agências de vigilância sanitária certamente estarão mais ágeis que antes da pandemia.
“Essa é a vantagem adicional de trabalharmos com plataformas tecnológicas como RNA mensageiro e vetor viral. Pelas suas características, já saem com uma base de aprovação maior”, observa Krieger.