O Globo, n 32.366, 19/03/2022. Política, p. 10

Alckmin confirma ida ao PSB e encaminha chapa com Lula

Gustavo Schmitt e Sérgio Roxo


Apesar de resistência de ala do PT, ex-governador paulista deve ser indicado para a vaga de vice na disputa presidencial

Depois de mais de seis meses de negociações, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin confirmou ontem que vai se filiar ao PSB. A entrada de Alckmin na legenda o aproxima ainda mais da chapa encabeçada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de outubro. Embora a aliança seja criticada por setores do PT, a expectativa nos dois partidos é que a indicação do ex-governador como vice ocorra em breve. Numa publicação nas redes sociais, ontem de manhã, o ex-tucano informou sua filiação ao PSB e fez uma referência ao ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, que morreu em um acidente de avião em 2014 durante a campanha presidencial daquele ano pelo partido. “Não vamos desistir do Brasil” , escreveu Alckmin. A frase era o mote da campanha de Campos e foi dita por ele em entrevista ao “Jornal Nacional” na véspera do acidente. Quando morreu, o pernambucano era a maior liderança nacional do PSB.

Na publicação, Alckmin disse que o momento que o Brasil vive exige “grandeza política, espírito público e união” e, ao assumir tom de campanha, afirmou que o PSB não vai deixar “ninguém para trás”.

O partido vai realizar um ato em Brasília na próxima quarta-feira para celebrar a entrada do ex-tucano. Alckmin tinha convites também do PV e do Solidariedade, mas optou pelo PSB, maior partido, até agora, a aderir à aliança que será montada em torno de Lula.

ENCONTRO COM LULA

Segundo a colunista do GLOBO Bela Megale, Alckmin se reuniu a sós com o petista nesta semana, antes de fazer o anúncio. Há alguns meses, os dois se falavam por meio de intermediários e se reuniam acompanhados de outras pessoas. De uns tempos para cá, no entanto, eles têm falado regularmente por telefone, sem interlocutores.

A indicação de Alckmin para o posto de vice enfrenta oposição de correntes de esquerda do PT e de dois ex-presidentes da legenda: Rui Falcão e José Genoino. A questão, porém, ainda não foi discutida formalmente nas instâncias internas. Na próxima semana, o diretório nacional petista deve aprovar uma diretriz para a formação das alianças na eleição presidencial. A expectativa é que a aprovação de Alckmin como vice só ocorra perto da metade do ano num encontro partidário. Antes disso, os petistas esperam que o PSB indique formalmente o ex-governador paulista como vice. Isso pode ocorrer logo após o evento de filiação. Apesar da posição antiAlckmin de alguns setores do PT, a expectativa no partido é que a posição de Lula se imponha.

Os críticos da aliança lembram que o PT sempre se opôs às medidas de Alckmin no governo paulista. Documento elaborado pela Fundação Perseu Abramo, mantida pelo PT, diz que as gestões tucanas em São Paulo adotaram “políticas neoliberais que ampliaram as desigualdades, a concentração de renda e sucatearam os serviços públicos”. Alckmin foi governador por quatro mandatos. Os críticos à aliança lembram, ainda, que o ex-governador disse que “depois de quebrar o Brasil, Lula quer voltar à cena do crime”. A declaração foi dada durante evento do PSDB em 2017, numa alusão à tentativa de Lula de disputar as eleições que se realizariam no ano seguinte. Alckmin acabou enfrentando Haddad na disputa presidencial de 2018. Terminou em quarto, com 4,76% dos votos válidos. Ele já havia enfrentado Lula em 2006. Petistas avaliam que os ataques do ex-governador ao PT se deram em contextos eleitorais e se mantiveram “acima da cintura”.

No ato que o PSB preparou para marcar a entrada de Alckmin no partido, serão sacramentadas também as filiações ao PSB do vice governador do Maranhão, Carlos Brandão (PSDB), pré-candidato ao governo do estado, e do senador Dario Berger (MDB-SC), pré candidato ao governo catarinense. Devem ser anunciadas ainda, no evento, a entrada no partido de cerca 40 pessoas de todo o país que planejam disputar a eleição para o Legislativo. Fazem parte desse grupo, entre outros, a influenciadora digital Ariadna Arantes, o babalorixá e gestor público Diego de Airá, o advogado Augusto de Arruda Botelho e a líder do movimento de moradia popular Carmen Silva, além de ex-colegas de Alckmin no PSDB, como o ex-deputado federal Floriano Pesaro e o ex-deputado estadual Pedro Tobias. Considerada inicialmente improvável, a costura da união entre Lula e Alckmin teve início em julho do ano passado.

O ex-governador paulista Márcio França (PSB) levou a ideia ao exprefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), que abriu conversas com Lula sobre o assunto. Alckmin e Lula se encontraram de forma reservada duas vezes na casa do ex-deputado Gabriel Chalita, que foi secretário de Haddad na prefeitura paulistana, no segundo semestre do ano passado. O petista passou, então, a fazer elogios públicos ao ex-governador. Filiado ao PSDB por 33 anos, ele deixou o partido em dezembro.