O Globo, n 32.366, 19/03/2022. Política, p. 08
Apelo por permanência reaproxima Leite do PSDB
Gustavo Schmitt
Em carta que incluiu aliados de Doria, tucanos dizem que país espera “alguém que possa liderar uma campanha viável”
Em mais uma tentativa de manter no partido o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, líderes do PSDB divulgaram ontem uma carta pedindo que o gaúcho desista de migrar para o PSD, de Gilberto Kassab. Diferentemente de movimentos anteriores, restritos a aliados de Leite, o documento foi assinado até por pessoas próximas ao governador de São Paulo, João Doria, pré-candidato tucano à Presidência. A carta afirmou que o partido reunirá “as forças necessárias ”, que “a missão será dada” e que o país espera “alguém que possa liderar uma campanha (...) propositiva e viável”, sem mencionar explicitamente a candidatura de Doria. “O momento é de união em torno de um projeto que recoloque a Nação no caminho certo.
A maioria dos brasileiros, cansada de tanto extremismo, está à espera do retorno à normalidade e, nessa direção, de alguém que possa liderar uma campanha, ao mesmo tempo, empolgante, propositiva e viável. Não admitimos a possibilidade de o perdermos nesse momento crucial para a história do Brasil ”, diz a carta para Leite. Com a assinatura de 28 tucanos, o documento diz que o PSDB se orgulha da trajetória de Leite e de sua “escalada absolutamente exitosa”, passando por cargos de vereador, prefeito e governador. Leite afirmou que ficou “sensibilizado” com a iniciativa e que vai manter o diálogo com a sigla.
ARTICULAÇÃO DE SENADOR
Articulado pelo senador Tasso Jereissati (PSDBCE), o documento é assinado pelo presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, que estava afastado de Leite desde que o gaúcho intensificou sua aproximação com o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, que lhe ofereceu a entrada na legenda para disputar a Presidência da República.
Araújo coordena a pré-campanha de Doria a presidente e hoje é um dos poucos no partido a manter boas relações com todas as alas em meio a um cenário de guerra interna. Além de Araújo, outros ex-presidentes da sigla assinam o texto: Pimenta da Veiga, Teotônio Vilela, José Aníbal, o deputado Aécio Neves (MG) e o senador José Serra (SP). O principal entusiasta do movimento pela permanência é Aécio. Desafeto de Doria, ele tem defendido que o resultado das prévias não pode se tornar uma “camisa de força” para o partido. Doria ainda não conseguiu se viabilizar nas pesquisas e sofre com alta rejeição do eleitorado. Aliados de Leite sugerem que ele assuma o lugar de candidato do PSDB na convenção, que deve ser realizada entre 20 de julho e 5 de agosto.
Doria não assinou o manifesto a favor de Leite, mas um dos seus apoiadores mais fieis é um dos signatários: o presidente do diretório estadual de São Paulo, Marco Vinholi, que também é secretário de Desenvolvimento Regional no governo paulista. Parlamentares próximos a Doria e que trabalharam pelo paulista nas prévias também endossaram a permanência do gaúcho. Foi o caso do deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP), da senadora Mara Gabrili (PSDB-SP) e do deputado federal Nilson Pinto (PSDB-PA).
A eventual entrada de Leite na disputa pela terceira via, caso ele migre para o PSD, poderia aprofundar a fragmentação deste campo e, com isso, dificultar ainda mais o caminho de Doria. Horas após a divulgação da carta, Leite reagiu numa rede social dizendo que está “conversando com muitos” indivíduos que querem “mudar o Brasil”. “Naturalmente, o PSDB é a conversa primeira e fundamental, já que é meu partido há mais de 20 anos”, escreveu Leite. Pela legenda, o gaúcho se elegeu vereador e prefeito de Pelotas antes de ser governador do estado. Segundo Leite, a carta “demonstra que o partido está alinhado” com suas “preocupações com o país neste momento crucial de nossa história”. Ainda na resposta ao documento, o governador gaúcho afirmou:
“Me permite continuar esse diálogo interno para ver como o PSDB pretende ser protagonista no processo nacional, junto com outras forças políticas do centro democrático.”
CAMINHOS PARA FICAR
Além da carta, o PSDB tem dado sinais mais concretos de que torce pela permanência do governador gaúcho. Nos bastidores, tucanos dizem que Bruno Araújo já deixou claro que Leite poderia presidir o partido a partir do ano que vem. Como o gaúcho estaria sem cargo, num cenário em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o presidente Jair Bolsonaro vençam, na presidência do partido ele teria um palanque para preparar sua candidatura para as eleições de 2026.
Após Leite dizer a aliados que estava “inclinado” a trocar de partido, em fevereiro, cresceu no PSDB o temor de que a saída do governador gaúcho provocasse uma debandada de tucanos. A própria direção da sigla trabalha com a hipótese de que cerca de dez parlamentares saiam até o fim da janela partidária, em 1º de abril. A bancada atual tem 31 deputados. Em resposta a apelo, governador afirma que legenda está ‘alinhada’ com suas preocupações.