O Globo, n 32.366, 19/03/2022. Brasil, p. 18
PROBLEMAS HÍBRIDOS
Gabriel Gonçalves e Bruno Alfano
Faculdades combinam aulas online e presenciais, e alunos reclamam
Enquanto algumas das principais cidades do país flexibilizam o uso de máscaras e universidades públicas retomam as aulas presenciais, instituições privadas de ensino superior têm adotado um modelo híbrido de ensino mesmo para os matriculados em cursos presenciais. Em tese, aulas teóricas são online e as práticas, presenciais. No dia-a-dia, porém, estudantes ouvidos pelo GLOBO relatam problemas como salas superlotadas, falta de funcionários administrativos, demissão de professores, aulas práticas à distância e mensalidades mais caras. Alunos contam que, como o ensino online permite que mais estudantes assistam às aulas, já que não há um limite físico, as universidades acabaram inchando os cursos. Quando os estudantes precisam ir às aulas práticas, as salas ficam superlotadas e não é possível esclarecer dúvidas. Além disso, por falta de professores, uma mesma sala recebe alunos de diferentes períodos.
—Pagamos pelo presencial e recebemos o híbrido — afirma Carolina Custódio, de 27 anos, aluna de Psicologia do Centro Universitário Una, de Belo Horizonte. A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior não quis comentar sobre o caso. Mas instituições que foram alvos de reclamação alegam que as aulas pela internet atendem às necessidades dos alunos, turmas de aulas presenciais com excesso de estudantes foram redimensionadas e as queixas são levadas em conta.
—Estão colocando diversos semestres diferentes com a mesma aula. Estou no terceiro semestre e tenho aula com o primeiro e com o segundo semestre. Além de matricularem muito mais alunos do que a faculdade consegue, o que resultou em salas superlotadas, com alunos sentados no chão ou em pé, professores estão perdidos. Está um caos — disse a estudante de medicina veterinária Maria Eduarda (que preferiu não informar o sobrenome), da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.
A Universidade Anhembi Morumbi informou que o retorno presencial começou no dia 7 de março e reconheceu que, com isso ,“algumas turmas estiveram momentaneamente com a capacidade das salas ocupadas em sua totalidade”. Segundo a universidade, “logo que isso foi identificado, as turmas foram redimensionadas, distribuindo assim os estudantes em salas com maior espaçamento”. As universidades estão adotando também a nacionalização do ensino, juntando estudantes de vários lugares do Brasil. Algumas disciplinas chegam a ter 300 ou 400 pessoas numa mesma sala online.
— É muita gente para o professor controlar, para tirar dúvida — avalia João Gabriel Costa, aluno de Administração na Estácio de Sá do Maranhão. — O ensino fica mais comprometido porque aquela atenção maior, de bater papo, o professor não consegue fazer. A Estácio de Sá informou que “as aulas síncronas pela internet ganharam tanta qualidade que o aluno passou a considerar uma boa opção para acrescentar à sua grade no campus”. Para a rede, “as aulas síncronas pela web atendem a essa necessidade do alunado, antes de tudo”.
FORMA EQUIVOCADA
Ex-secretário Nacional de Educação à Distância e pesquisador do tema, Carlos Eduardo Bielschowsky avalia que a educação híbrida e nacionalização das turmas com muitos alunos, em si, não seria um problema. No entanto, a forma com que isso tem sido feito está equivocada:
— Se tivesse juntado uma equipe de tutores para atender esses estudantes, aliando as aulas com diferentes metodologias, ambiente de aprendizagem, pode até ficar legal. A impressão que eu tenho é que a maior parte desse movimento é pela maximização dos lucros mesmo. Temos visto cada vez mais o aumento de turmas e a diminuição de professores. Um dos principais especialistas em ensino híbrido no país, Ronaldo Mota diz que a modalidade vai na contramão de uma enorme sala de aula online.
—À medida que a aprendizagem é mediada por interfaces, ela permite coletar dados educacionais do aluno e, quanto mais a gente conhece os alunos, há mais condições de definir para cada um deles, individualmente, quais são as trilhas educacionais mais compatíveis. A gente personaliza a educação—explica. Na Universidade São Judas Tadeu, também em São Paulo, estudantes relataram que houve exclusão de diversas matérias da grade de ensino, agora oferecidas como cursos extracurriculares, que devem ser pagos à parte. Uma estudante do 9º semestre de Direito da universidade relatou que “a mensalidade só aumenta” com a inclusão desses cursos à parte.
MODALIDADE FLEX
A Universidade São Judas Tadeu afirmou que segue rigorosamente as diretrizes do Ministério da Educação em relação à modalidade presencial: “Sobre a questão do reajuste da mensalidade, a universidade reforça que este movimento acontece anualmente de acordo coma Lei nº .9.870/99 e conforme previsto em contrato firmado com seus estudantes. Por fim, a Universidade São Judas reforça que mantém o canal aberto ao diálogo com seus estudantes”, informou.
Outra reclamação comum entre é o preço da mensalidade. Algumas universidades têm oferecido uma modalidade chamada “flex” em que a carga horária para aulas presenciais é menor, o que reduz o preço. Um curso de Ciências Contábeis na Anhembi Morumbi, por exemplo, custa R$1.169 com aulas 100% presenciais e R$ 699 na modalidade flex. Os estudantes que se matricularam na modalidade presencial, no entanto, reclamam que como também têm de assistir aulas online, deveriam pagar um valor menor. Além disso, em algumas instituições de ensino, houve reajuste de 11,5% e a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE fechou o ano com alta de 10,06%.
— Os estudantes procuraram a comunicação, procuram a secretaria, já enviaram inclusive muitas denúncias no Procon, Ministério Público, e não têm retorno sobre o que as universidades têm feito —disse Layane Cotrim, da UNE, que tem acompanhado o caso. Em algumas cidades, UNE e estudantes chegaram a fazer protestos na porta das universidades.