Valor Econômico, v. 23. n. 5679, 28, 29 e 30/01/2023, Opinião, A14 

Cenário externo melhora e dá chance para Brasil fazer ajustes 

 

O arrefecimento da inflação nos países desenvolvidos trouxe uma lufada de otimismo sobre a economia global, a ponto de já se poder antever, com toda a cautela possível, que a economia europeia e a americana não mergulharão em recessões longas e profundas sob impacto dos aumentos dos juros determinados pelos Bancos Centrais, que prosseguirão. Essas economias estão esfriando, mas o pico da inflação ficou para trás e ela está de fato cedendo. Os movimentos que um cenário melhor em formação deixa entrever abrem mais uma janela de oportunidade para que o Brasil tenha tempo (ainda que não muito) para arrumar a casa fiscal e preparar o caminho do crescimento. 

Após ter suportado a mais rápida escalada dos juros em décadas, a economia americana cresceu 2,9% no quarto trimestre e 2,1% no ano passado. Até mesmo em dezembro, o último mês do ano, a média das projeções dos membros do Fed para o ano era de 0,5%. Mas os juros frearam de fato a economia, o que apareceu de forma bem mais clara nos meses finais do ano. A expansão do PIB no período ocorreu no começo do trimestre. Já em novembro e dezembro o consumo declinou significativamente, a indústria teve desempenho negativo, assim como as vendas de imóveis. A força do PIB foi atribuída por vários analistas a fatores indesejados, como a formação de estoques por varejo, indústria e setor de construção, fruto da retração do consumo. 

A inflação, na medida preferida pelo Federal Reserve, a dos gastos pessoais de consumo, fechou o ano em 5%, depois de ter ultrapassado 7% há pouco tempo. O núcleo desse índice recuou a 4,4%. O PCE de serviços, que concentra a atenção do Fed segue alto: 5,2% em dezembro. Todas as medidas, no entanto, estão bem acima da meta de 2%, e o Fed prosseguirá com aumento de juros, agora em menores doses, já que o ciclo de altas já foi quase todo percorrido, e aponta, em seu final, para algo entre 5% e 5,5%. Ou seja, haverá mais aperto monetário no momento em que a economia mostra que perdeu fôlego. 

A inflação também recua do outro lado do Atlântico, onde a certeza de uma recessão na zona do euro deu lugar à perspectiva de um crescimento zero ou ligeiramente positivo. A maior economia do bloco, a Alemanha, teve expansão no ano passado, em meio a muitas adversidades. O cenário europeu é dominado pelos rumos da invasão da Rússia na Ucrânia. Uma grande parte da inflação se deve a ela, que fez explodir os preços da energia, enquanto os governos tentavam se livrar da dependência do fornecimento russo, movimento que também foi feito por Moscou, cortando o suprimento. 

Há novos capítulos, como um teto de preço também para o diesel, e outros certamente se sucederão, mas o primeiro deles não foi tão trágico. O inverno foi mais ameno do que poderia ter sido, e os estoques de gás europeu de outras fontes foram formados com rapidez. Por isso, sem novo choque de energia, a inflação está cedendo e o impacto sobre as atividades econômicas, antes imaginado como paralisante, não ocorreu. A inflação, porém, continua alta como nunca em 40 anos e o Banco Central Europeu, que saiu atrás no ajuste dos juros, prosseguirá com a terapia - há apostas de pelo menos mais dois aumentos que levarão a taxa para 3% ou mais. 

A China fez reviravolta completa em sua política contra a covid-19, abriu as fronteiras e espera livrar-se das restrições que reduziram sua expansão a 3%, abaixo da meta de 5,5%. A aceleração do crescimento pode não ser tão intensa como muitos esperam, nem ocorrer tão rápido, diante da celeridade dos contágios e dos problemas de infraestrutura para atender os doentes. Mas há consenso de que o desempenho da economia será melhor e tanto melhor quanto mais estímulos forem dados ao setor imobiliário, que cambaleia com o estouro da bolha. É pouco provável, porém, que o apoio seja generalizado e de grande magnitude. 

Há várias incertezas. O preço das commodities pode cair, ou subir pouco, o que seria bom para a inflação. Com menor ímpeto de aperto monetário nos EUA, o dólar está perdendo força, o que retira um elemento de tensão inflacionária importante no Brasil, às voltas com impasses fiscais. Os investidores estão alocando mais recursos para os países emergentes, e, sem alarde, o Brasil recebeu US$ 90 bilhões em investimentos diretos, a maior quantia em duas décadas. Novas regras fiscais satisfatórias e um avanço sério na reforma tributária poderão abrir melhores perspectivas para uma economia que deve marcar passo entre 0 e 1% neste ano.