O Globo, n 32.365, 20/03/2022. Política, p. 10

Bancada da Michelle: primeira-dama sai em “campanha'' por aliados

Alice Cravo


A menos de um ano das eleições, mulher do presidente passa a prestigiar eventos de filiação de amigos e parentes

Avessa à trincheira política, a primeira-dama Michelle Bolsonaro dá sinais de que vai entrar em ação para ajudar a eleger quadros com quem tem ligação, inclusive de parentesco. Nas últimas semanas, ela tem comparecido a cerimônias de filiação e posse de aliados. Michelle fez questão de comparecer recentemente a um evento do PL, partido do presidente Jair Bolsonaro, para prestigiar a filiação à legenda da secretária de Segurança do Distrito Federal, Marcela Passamani, de quem é amiga. Passamani deve concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados nas eleições em outubro. As duas se aproximaram em 2020, quando a candidata passou a convidar a primeira-dama para eventos públicos.

—Estou feliz de estar aqui com a minha amiga, Marcela Passamani, que é um exemplo para tantas mulheres. Você nos inspira muito —disse Michelle durante um evento em comemoração ao Dia da Mulher, no último dia 7. A primeira-dama também se mostra empenhada na tarefa de conduzir parentes para o campo da política. No mês passado, ela esteve presente no evento que marcou o ingresso de seus irmãos Carlos Eduardo Torres e Diego Dourado ao PL. O primeiro pretende concorrer a deputado federal pelo Distrito Federal. O anúncio foi feito ao lado dos deputados federais Helio Lopes (PSL- RJ) e Carla Zambelli, recém filiada à mesma sigla.

No mesmo dia, chegou à legenda a jornalista Amália Barros, pré-candidata a deputada federal pelo Mato Grosso do Sul. Ela e Michelle trabalharam juntas pela aprovação de um projeto de lei que classifica a visão monocular como deficiência visual. As aparições da primeira dama têm sido destacadas pela comunicação do PL nas redes sociais. A expectativa do partido é que o engajamento dela se intensifique, atraindo ainda mais filiados.

—As mulheres serão fundamentais na eleição, e a presença da primeira-dama nos eventos é ótima para nós. Torço para que continue. Só pela presença já dá para ver que ela estará engajada, certeza que vai —comemora o deputado federal Capitão Augusto (SP), vice-presidente do PL.

Essa não é a primeira vez que Michelle atua como cabo eleitoral. Há dois anos ela se engajou na disputa municipal e declarou apoio a quatro candidatos a vereador —um ex-atleta, um ativista anticorrupção, um militante pelos direitos de pessoas com deficiência e um candidato autointitulado “gay conservador”. Nenhum deles se elegeu. Michelle é tratada nos bastidores do governo como um trunfo estratégico para Bolsonaro ganhar terreno entre o eleitorado feminino, parcela da população na qual ele enfrenta forte rejeição, de acordo com pesquisas eleitorais. Integrantes do comitê de campanha do presidente defendem que intensificar as aparições de Bolsonaro ao lado da primeira-dama ajudariam a suavizar a sua imagem. Procurada, Michelle não comentou.

BANDEIRA

A defesa das pessoas com doenças raras é a principal bandeira defendida por Michelle. Empenhada nessa causa, ela foi ao Congresso no mês passado para acompanhar a posse de Patrik Dornelles (PSD-PB) como deputado federal. O novo parlamentar assumiu o posto após o pedido de licença de Pedro Cunha Lima (PSDB-PB), que vai se dedicar à campanha ao governo do estado. Dornelles tem mucopolissacaridose, uma doença rara. Michelle ficou ao seu lado durante todo o discurso. O convite para a cerimônia foi feito pelo próprio Dornelles, que descreve a atuação da primeira-dama como político-social.

—Converso com ela, mas não tratamos sobre política, falamos sobre as pessoas, o social, a vida. Quando eu tenho demandas e questões a tratar, tenho pessoas que fazem isso direto com o presidente Jair Bolsonaro. Acho que todos nós devemos ser políticos-sociais — afirmou o deputado.

Em sua principal investida no campo político, Michelle trabalhou ativamente para angariar apoio à indicação do ex-ministro da Advocacia-Geral da União André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal (STF). A primeira-dama acompanhou no Congresso a a aprovação de Mendonça no Senado. Evangélico como Michelle, o ex-ministro do governo Bolsonaro acabou empossado na Corte em dezembro do ano passado. No círculo do poder em torno de Bolsonaro, Michelle seleciona a dedo com quem se relaciona. Tem mais proximidade com políticos declaradamente evangélicos.

Uma das maiores amigas da primeira-dama é a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que deverá disputar uma vaga no Senado — ainda não se sabe por qual sigla. No dia do aniversário da amiga, Michelle usou as redes sociais para classificála como “referência de mulher”: “Parabéns para minha referência de mulher, cristã, mãe, amiga, guerreira, forte, corajosa, amorosa e protetora. Amiga, sua dor é a minha dor. A sua felicidade é a minha. Eu desejo a você tudo que há de mais maravilhoso no mundo. Te amo muito, Damares!”