O Globo, n 32.367, 20/03/2022. Economia, p. 20

Na Argentina, empresas já pagam salário em cripto moeda



Objetivo é fugir da inflação. Instabilidade econômica no país funciona como incentivo para o avanço do dinheiro digital

Estádios, ônibus e outdoors em toda a Argentina exibem anúncios de Bolsas de criptomoedas. A instabilidade econômica do país incentiva um dos maiores avanços do dinheiro digital já vistos. 

Apresentadores de TV e rádio falam sobre opções de investimento em moedas digitais e uma Bolsa de criptomoedas patrocina o maior torneio de futebol do país. 

Também aumenta o número de trabalhadores que são pagos em criptomoedas para contornar controles cambiais e oscilações da taxa de câmbio e se proteger da inflação que chega a 50%. A Argentina tem uma parcela maior de empregados pagos em criptomoeda do que qualquer outro país, segundo a Deel, firma especializada em folha de pagamento que opera em 150 países. 

Por trás da tendência está a legislação local que permite que as empresas paguem até 20% da remuneração em espécie. 

É uma grande vantagem em vista dos controles cambiais aplicados na Argentina. Se uma empresa pagar US$ 1.000 por meio do sistema bancário, o funcionário receberia cerca de 109.000 pesos segundo a taxa de câmbio oficial. Mas se o trabalhador for pago em criptomoeda, a troca pode ser feita pela taxa de câmbio paralela não regulamentada, resultando em cerca de 200 mil pesos — uma diferença de 83%.

— A criptomoeda melhora os salários locais—disse Matias Dajcz, vice-presidente global de operações de balcão da Ripio, prestadora de serviços a empresas que pagam em criptomoeda.

O setor de tecnologia, em particular, vem pagando parte dos salários com stablecoins atreladas ao dólar, além de bitcoin e ethereum. Os preços de muitas dessas moedas caíram nos últimos meses, com o bitcoin recuando cerca de 40% em relação ao pico atingido em novembro. O movimento causou perdas substanciais aos argentinos que não converteram suas moedas virtuais em pesos.

Algumas empresas infringem regras e ultrapassam o limite de 20% do salário pago em espécie, segundo Andrés Ondarra, gestor da bolsa Bitso, que tem 4 milhões de usuários. O total de companhias que pagam salários em moeda digital subiu 340% nos últimos 12 meses, segundo a Buenbit, Bolsa de criptomoedas argentina com 600 mil usuários.

O banco central alertou os argentinos para o fato de que suas economias em criptomoedas são vulneráveis a ataques cibernéticos e não são protegidas por garantia de depósito. Como parte do acordo de US$ 45 bilhões assinado com o Fundo Monetário Internacional (FMI) este mês, a Argentina se comprometeu a “desencorajar o uso de criptomoedas para prevenir lavagem de dinheiro, informalidade e desintermediação”.

A BitPay, que oferece serviços de pagamento em criptomoedas a trabalhadores nos EUA, diz que alguns são pagos inteiramente em criptomoedas. Nos EUA, os pagamentos costumam ser feitos em bitcoin, ethereum e dogecoin.