Valor Econômico, v. 23. n. 5682, 02/02/2023, Política, A6
Lula não terá vida fácil no Senado
Fernando Exman 

 

Seis mil quilômetros separam Brasília e Kissimmee, cidade localizada na Flórida, Estados Unidos, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) expatriou-se após ser derrotado no pleito de outubro. Mas a distância eleitoral entre a frente ampla liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o bolsonarismo permanece muito menor. 

A eleição para a presidência ao Senado demonstrou ao governo que, embora o chefe do Poder Executivo e as instituições republicanas tenham saído fortalecidos da tentativa de golpe do dia 8 de janeiro, o bolsonarismo continua bem articulado. E não dará vida fácil ao Executivo na Casa. 

Lula venceu Bolsonaro em outubro, no segundo turno, com 50,9% dos votos válidos contra 49,1%. Foi diplomado e tomou posse, mas uma espécie de terceiro turno ocorreu nesta quarta-feira no Senado. Após ver a candidatura bolsonarista ganhar corpo, o Palácio do Planalto precisou entrar em campo para, junto com os demais partidos aliados, assegurar a vitória de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) contra Rogério Marinho (PL-RN). 

Antes da disputa, aliados de Pacheco diziam acreditar que o atual presidente do Senado obteria pelo menos entre 50 e 55 votos. Conseguiu 49 contra 32, mais do que os 41 necessários. Mas o resultado deve soar como alerta ao governo: 49 é justamente a quantidade de votos necessários para a aprovação de uma proposta de emenda constitucional (PEC) na Casa. Ou seja, há pouca margem de segurança. 

Em outra frente, a oposição somou mais dos que os 27 votos necessários para requerer a instalação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs). 

A eleição para a presidência do Senado também escancarou que a liderança do bolsonarismo não será conduzida mais apenas pelo próprio ex-presidente, seus filhos e ex-ministros: a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro foi pessoalmente ao Parlamento para fazer campanha em favor de Marinho. No PL, fala-se na possibilidade de ela ser candidata em 2026, caso o marido se torne inelegível. 

Na Câmara, a base aliada inicia a atual legislatura ainda mais longe de atingir o quórum constitucional, ou seja, um piso de 308 deputados. Mas foi determinante para a folgada reeleição de Arthur Lira (PP-AL). A adesão dos governistas à candidatura de Lira facilitará o diálogo do Planalto com a cúpula da Câmara, onde a oposição será liderada por Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente. 

Na Câmara, aliás, a bancada bolsonarista mostrou disposição de fazer barulho, ao vaiar o discurso do deputado Chico Alencar (Psol-RJ), candidato derrotado na disputa, que condenava os atos antidemocráticos do dia 8 de janeiro. Era, felizmente, uma minoria. E que na sequência logo sofreu um revés ao ouvir forte discurso de Lira em defesa da democracia. 

Após ser reeleito, o presidente da Câmara disse que era hora de “desinflamar o Brasil” e afirmou que nenhum regime irá prosperar fora da democracia. Em seguida, destacou que quem atentar contra o estado democrático de direito sofrerá o rigor da lei. “Para aqueles que depredaram, vandalizaram e envergonharam o povo brasileiro haverá o rigor da lei”, afirmou. 

Pacheco já vinha na mesma linha. “Acontecimentos como em 8 de janeiro de 2023 não podem, e não vão, se repetir. O discurso de ódio, o discurso mentiroso, o discurso golpista deve ser desestimulado, desmentido e combatido. O recado que o Senado Federal dá ao Brasil agora é que manteremos a defesa intransigente da democracia”, sublinhou o senador, após a vitória. 

Foi uma importante sinalização a Lula, que horas antes já havia feito um aceno estratégico ao Congresso. Ao discursar durante a abertura do ano judiciário, no Supremo Tribunal Federal (STF), o chefe do Executivo fez uma defesa do exercício da política e, em tom de desabafo, pediu que nunca mais se duvidasse da política. Neste ponto, na valorização da política e na condenação de atos antidemocráticos, a frente ampla e o bolsonarismo estão, sim, a léguas de distância.