Valor Econômico, v. 23. n. 5682, 02/02/2023, Brasil, A2
Inflação da indústria fecha o ano em 3,13% e é a menor desde 2016
Alessandra Saraiva
A inflação “porta de fábrica”, sem impostos e fretes, apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em seu Índice de Preços ao Produtor (IPP) registrou, em 2022, a menor taxa anual em sete anos. Nesta quarta, 1º, o instituto anunciou queda de 1,29% no IPP de dezembro, mais forte do que a de novembro (-0,52%) e que ajudou o índice a fechar o ano passado com alta de apenas 3,13%.
Além de muito inferior à de 2021 (28,45%), foi a menor taxa desde 2016 (1,71%). O menor ritmo de crescimento global no ano passado, bem como o câmbio no segundo semestre de 2022, contribuiu para o resultado, de acordo com Felipe Câmara, pesquisador do IBGE. Isso porque os dois aspectos ajudam a diminuir preço de insumos industriais, no Brasil.
O menor ritmo de inflação na indústria foi apurado pelo IBGE em diferentes aspectos do indicador. Em dezembro do ano passado, 15 das 24 atividades acompanhadas pelo IPP tiveram queda de preços - em dezembro de 2021, foram 17 com variação positiva.
Houve também recuos nos dois componentes do IPP. Os preços na indústria de transformação caíram 1% em dezembro e os da indústria extrativa recuaram 7,2% no mês. Com isso, os preços da indústria da transformação encerraram 2022 com alta de 3,70%, e os da indústria extrativa, em deflação de 7,9%. Em 2021, as taxas de inflação anuais foram mais fortes, respectivamente de 29,2% e de 13,8%.
O IPP também mostrou recuos de preços na maioria das categorias de uso industriais, em dezembro. Houve quedas em bens intermediários (2,08%), bens de consumo duráveis (-0,16%) e bens de consumo semiduráveis e não duráveis (-0,48%).
Somente bens de capital apresentou alta, de 0,85%. Esse setor acabou mostrando, no ano, a mais forte inflação entre as grandes categorias, com aumento anual de 11,92%. O IBGE, em 2022, apurou altas de 0,90% em preços de bens de intermediários; de 6,95% em bens de consumo duráveis; e de 4,84% em bens de consumo semiduráveis e não duráveis
O setor de refino de petróleo e biocombustíveis foi a principal influência tanto para resultado mensal quanto para taxa anual do IPP. Em dezembro, esses preços caíram 5,46%, e finalizaram o ano com alta de 11,06% - 58,62 pontos percentuais (p.p.) inferior a de 2021. Os produtos dessa área tiveram impacto, respectivamente, de -0,68 p.p, na taxa mensal do indicador; e de 1,23 p,p. na taxa anual.
O pesquisador explicou que setores relacionados a commodities, como de refino - que leva em conta cotação do petróleo - nortearam trajetória do IPP. “Em escala global tivemos expectativa de crescimento mais lento [da economia em 2022]. Percebemos, no ano passado, política de arrocho monetário em vários países. As commodities reagiram em queda.”
Outro exemplo de recuo expressivo, de setor relacionado a commodity (nesse caso, o minério de ferro), foi o dos preços de metalurgia, que caíram 1,30% em dezembro, fechando o ano passado com alta de 12%. As duas taxas, a mensal e a anual, foram as menores da série histórica do setor, no IPP.
A cotação do dólar também diminuiu. Isso também ajuda a reduzir preços de insumos importados, usados na indústria.
Ao ser questionado se, com inflação menor em custos industriais, os preços dos produtos finais também poderiam diminuir de ritmo, o técnico foi cauteloso. Ele lembrou que, “no Brasil e em qualquer outro lugar”, a formação de preço de produto é algo complexo. Desde a prateleira até o consumidor no varejo, notou, passa por gerenciamento de estoque de imagem, de “trader” até vendedor final. A dúvida é como essas forças vão se organizar para provocar repasse ou não de variação negativa, no preço do produto final que é comprado pelos brasileiros, disse.