O Globo, n 32.368, 21/03/2022. Mundo, p. 23

ZELENSKY PROÍBE PARTIDOS PRÓ-RÚSSIA E CONTROLA TVS

André Duchiade


PRESIDENTE RECORRE A LEI MARCIAL

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, usou ontem os poderes especiais concedidos pela lei marcial em vigor no país para suspender temporariamente as atividades de partidos políticos acusados de manter laços amigáveis com a Rússia e para controlar as informações jornalísticas veiculadas na televisão.

Zelensky anunciou que, dada a invasão russa, o Conselho de Segurança Nacional ucraniano decidiu suspender todas as atividades na Ucrânia de 11 partidos políticos. A maioria das siglas afetadas é pequena e sem representação parlamentar, mas uma delas, a Plataforma de Oposição pela Vida, detém 44 assentos no Parlamento, de 450 deputados.

— As atividades desses políticos visando divisão ou conluio não terão sucesso, e receberão uma resposta dura — disse Zelensky, em um discurso em vídeo. —O Conselho de Segurança e Defesa Nacional decidiu que, dada a guerra em grande escala deflagrada pela Rússia, e os laços políticos que várias estruturas políticas têm com este Estado, irá suspender todas as atividades de vários partidos políticos durante o período de lei marcial.

Um decreto de lei marcial foi baixado por Zelensky no mesmo dia da invasão russa, 24 de fevereiro, e prorrogado por 60 dias pelo Parlamento ucraniano na semana passada.

AMIGO DE PUTIN

A Plataforma de Oposição pela Vida, o maior partido de oposição da Ucrânia, é liderada por Viktor Medvedchuk, um empresário pró-Moscou com laços com o presidente russo, Vladimir Putin. O empresário teve seus bens —avaliados em US$ 620 milhões pela revista Forbes em 2021 — congelados pelo governo federal ucraniano em fevereiro de 2021, acusado de financiar o terrorismo. Em maio, ele foi posto em prisão domiciliar na Ucrânia, acusado de traição, e muitos viram essa prisão como um dos fatores que levaram à decisão russa de invadir.

Em 27 de fevereiro deste ano — três dias após o início da guerra — Medvedchuk escapou da prisão domiciliar. Seu advogado falou que ele “foi levado para um lugar seguro em Kiev” após sofrer ameaças. Especula-se que, se Putin quiser tirar Zelensky do poder para instituir um governo fantoche, o empresário pode ser nomeado um de seus líderes. O partido disse que a suspensão não tem base legal.

A lista de partidos suspensos inclui também o Nosso, liderado por Yevhen Murayev, outro nome cotado para assumir um governo em um possível cenário pós-Zelensky. Murayev negou com ênfase essa acusação, feita pela Inteligência britânica pouco antes da guerra. Os outros partidos não têm representação no Parlamento. O Ministério da Justiça ucraniano foi instruído a imediatamente “tomar medidas abrangentes para proibir as atividades desses partidos”.

Em outro decreto, Zelensky instituiu “a implementação de uma política de informação unificada em lei marcial”, obrigando todos os canais televisivos de notícias a transmitirem as mesmas informações. Sete canais deverão ser afetados. O decreto afirma que esta “é uma questão prioritária de segurança nacional, o que é alcançado pela combinação de todos os canais de TV nacionais cujo conteúdo programático consiste principalmente em programas informativos e/ou analíticos de informação em uma única plataforma de informação de comunicação estratégica, com maratona de informações 24 horas por dia ”.

‘CONTRA A DITADURA’

O deputado do partido pró Ocidente Solidariedade Europeia Mykola Kniazhytsky, fundador do canal Expresso, classificou o decreto como “ilegal e injusto”. “O povo está lutando pela liberdade, não pela ditadura. Está lutando pela visão de mundo ucraniana, não pela paz russa”, escreveu no Facebook. “Estou pronto para apoiar Zelensky e a luta conjunta contra o agressor. Mas esta é uma luta por um mundo democrático, não por uma ditadura.” Kniazhytsky disse que “a última vez que o Expresso foi fechado foi [pelo ex-presidente pró-Rússia Viktor Yanukovych, durante o Maidan a revolta de 2014]. Não deu certo”.

Ontem, Zekensky discursou por vídeo para o Parlamento de Israel e cobrou que o país apoie a Ucrânia contra a Rússia, afirmando que não é possível “mediar entre o bem e o mal”. Israel tem boas relações com os dois lados da guerra, e o premier israelense, Naftali Bennett, se ofereceu para mediar um cessar-fogo.