O Globo, n 32.368, 21/03/2022. Economia, p. 12
Que tal investir no agronegócio? Mercado tem boas opções
Há produtos para investidores conservadores, moderados e arrojados; em renda fixa e variável, no curto e longo prazos
O Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio, calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), cresceu 8,36%, no ano passado, enquanto o PIB nacional avançou 4,6%. As exportações do setor, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), tiveram o recorde histórico de US$ 120,6 bilhões em 2021.
Para quem quer investir no agro e aproveitar os retornos que o setor tem oferecido, o mercado tem três tipos de produtos. Os principais são os Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRAs), o relativamente recente Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) e as ações de companhias listadas na B3. Cada um deles é voltado a um tipo de perfil do investidor, conforme objetivos e apetite a risco.
Luigi Wis, especialista em investimentos da Genial, explica que, para um investidor mais conservador, a renda fixa é a mais adequada, e os CRAs são a melhor opção.
Os CRAs são títulos lastreados em recebíveis de negócios entre produtores rurais e terceiros, como financiamentos ou empréstimos relacionados a produção e comercialização, além de outras operações ligadas à produção agropecuária. Os rendimentos, que podem ser pré ou pós-fixados, são isentos de Imposto de Renda para pessoa física.
— O investidor vai, basicamente, financiar um empreendimento no agronegócio, ou seja, como toda operação de renda fixa, nada mais é do que emprestar dinheiro a uma empresa do setor — explica Wis. —É uma forma de o investidor de perfil mais conservador aproveitar a alta das
commodities do agronegócio. Para Wis, é uma alternativa atraente, porque “normalmente paga uma taxa de juros maior do que as oferecidas pelo Tesouro Direto.”
HORIZONTE MAIS LONGO
Ainda que seja um investimento seguro, Wis ressalta que, se o investidor quiser escolher seus próprios CRAs, precisa avaliar quem é o emissor da dívida e a qualidade do crédito —os ratings ,ou seja as notas atribuídas pelas agências classificadoras.
— É importante avaliar se a empresa é de grande ou médio porte, de setores mais previsíveis ou mais cíclicos, para poder tomar uma decisão com mais segurança — reforça Wis. — O CRA tem liquidez, ou seja, pode ser negociado no mercado, mas o recomendado é um horizonte de, no mínimo, 12 meses para resgate.
As Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), esclarece Wis, não são um investimento direto no agronegócio, já que são títulos emitidos por um banco. Ou seja, o investidor empresta dinheiro a um banco, que por sua vez empresta para o agro.
— Não é um produto para quem quer ter exposição ao agronegócio —ressalta Wis.
Na transição entre o perfil conservador e o arrojado, está o Fiagro. Segundo Wis, ele é recomendado para um perfil moderado, “mas já com um pé na renda variável.”
O Fiagro é inspirado nos Fundos Imobiliários (FIIs). Ele visa a financiar o agronegócio por meio de fundos que fazem aportes em propriedades rurais ou em cotas de outros títulos, como os CRAs, os Créditos de Produtos Agrícolas (CPRs) e outros.
O primeiro Fiagro listado na B3, em agosto de 2021, foi o da Galápagos, em uma oferta restrita para investidores qualificados. Em janeiro, a gestora fez uma segunda emissão, desta vez aberta a todos os investidores. O mais recente lançamento é o RURA11, da Itaú Asset, que captou R$ 600 milhões com mais de 5 mil cotistas.
Novas empresas do agronegócio chegaram na B3, e outras viram seu volume negociado de ações aumentar consideravelmente. A especulação em torno desses papéis também cresceu, trazendo mais volatilidade.
— Hoje há uma série de ações listadas na Bolsa do segmento do agronegócio, sejam produtoras de commodities agrícolas, como algodão, milho, soja, açúcar e etanol, ou focadas em terras ou sementes —explica Wis, da Genial.
Entre as empresas mais tradicionais desse segmento estão SLC Agrícola, Brasilagro e São Martinho. Nos últimos cinco anos, a SLC Agrícola, produtora de soja, milho, algodão e, em menor escala, gado, viu seu volume médio mensal negociado saltar de R$ 120 milhões para R$ 1,2 bilhão. Já a São Martinho, do setor sucroalcooleiro, no mesmo período, passou de média mensal negociada de R$ 270 milhões para mais de R$ 900 milhões.
NOVAS EMPRESAS NA BOLSA
A Brasilagro, que atua no mercado imobiliário agrícola, segue a tendência: de um volume médio mensal de RS 22 milhões, em 2017, ultrapassou R$ 400 milhões no fim do ano passado.
Em 2021, chegaram à Bolsa: Jalles Machado, de açúcar e etanol; Boa Safra, de sementes; AgroGalaxy, plataforma de varejo e serviços voltados para o setor; 3Tentos, de distribuição de insumos agrícolas; e a gigante Raízen, joint venture entre Shell e Cosan. No início do ano, a Genial passou a cobrir empresas 100% focadas no agro, como SLC Agrícola, Brasilagro e Boa Safra, por ver perspectivas de crescimento. Já a Santander Corretora opta por Raízen, São Martinho e Jalles Machado, do setor sucroalcooleiro.
— Tanto o preço do açúcar quanto o do etanol, em patamares elevados, são puxados pelo preço do petróleo. À medida que o petróleo sobe, tende a elevar o preço do etanol, o que leva o setor a priorizar a produção de etanol — explica Ricardo Peretti, estrategista de ações da casa.