O Globo, n 32.369, 22/03/2022. Economia, p. 11

''SE HOUVER RECESSÃO, ESSA FESTA PODE ACABAR”

Tony Volpon. ESTRATEGISTA—CHEFE DAWHG Ex-DIRETOR Do BC


Para o estrategista-chefe da WHG e ex-diretor do Banco Central, Tony Volpon, a queda do dólar deve se manter no médio prazo. O maior risco para o real, diz, é uma recessão global.

Que fatores contribuem para a apreciação do real no ano?

O contexto é de uma alta de juros nos Estados Unidos e de uma inflação elevada no mundo inteiro. Esses dois fatores favorecem o tipo de ação presente na nossa Bolsa, que são empresas de commodities.Em momentos de inflação alta, os preços de commodities sobem. Estamos vivendo em um mundo inflacionário por várias razões. A guerra na Ucrânia piorou esse quadro. E, por outro lado, alta de juros penaliza um tipo de investimento comum nas Bolsas americanas, as empresas de tecnologia. O investidor global tem vendido essas empresas e comprado empresas de  commodities. O Federal Reserve, o BC americano, tem sinalizado um processo de alta de juros gradual. Mas há risco de eles acelerarem o passo.

Nosso Banco Central iniciou a alta de juros antes de seus pares. Isso ajudou a valorizar o real? Ou os fatores externos pesam mais?

De um lado, você tem uma demanda por reais, com o estrangeiro querendo vender dólar. E, do outro lado, o investidor local, que estava comprado em dólar, não quer mais porque é muito caro. Você cria demanda por reais, que gera valorização cambial. Mas o que realmente virou o cenário foi o fluxo. Sem ele, não teríamos um dólar abaixo de R$ 5.

Parte do mercado avalia que a guerra colocou o Brasil em vantagem frente a outros emergentes. O senhor concorda?

A guerra inflacionou mais o mundo. Isso é bom para qualquer produtor de commodities. Nesse sentido limitado, ajuda em um primeiro momento. O problema da guerra, do ponto de vista econômico, é que aumenta o risco de recessão. E se isso ocorrer, essa festa pode acabar.

As condições que ajudaram o real são sustentáveis no médio prazo?

Esse movimento deve continuar à medida que esses dois processos, o Fed subindo juros e a inflação global, continuem. E o cenário básico é que esses dois fatores continuarão por um bom tempo.

O que pode prejudicar o real?

Se esse processo de alta de juros pelo Fed for acelerado e levar a uma recessão nos Estados Unidos. O que está levantando o PIB global neste momento são os EUA. Se o país entrar em recessão, temos uma recessão global. Em recessões globais, os preços de commodities caem, porque você tem destruição de demanda.

Na sua avaliação, é viável o dólar abaixo de R$ 5 no fim do ano?

Sim, se as condições citadas ainda estiverem vigentes. (Vitor da Costa)