O Globo, n 32.369, 22/03/2022. Mundo, p. 16
NÃO SOBROU NADA TUDO VIROU PÓ
FUGITIVOS DE MARIUPOL RELATAM DRAMA DA CIDADE
Sergei Zozulya pediu aos médicos que tentassem salvar sua mão, dando a ela “uma chance”. Deitado em uma maca no hospital regional de Mariupol, sem água, sem aquecimento, com as janelas sem vidro cobertas apenas por folhas de madeira e papelão, Sergei fechou os olhos e, com o estômago afundando, tentou não olhar. As medicações eram escassas ali, e o efeito da anestesia geral havia passado, disseram os paramédicos. Seu braço e parte de seu torso adormeceram “com alguma coisa”, diz ele. E os médicos o costuraram da melhor maneira que puderam.
SALA DE CIRURGIA LOTADA
Horas antes, quando tentava aquecer uma panela de sopa sobre uma fogueira no pátio de seu prédio, onde os vizinhos cozinhavam como podiam, Sergei sentiu um golpe muito forte no braço e uma explosão.
— Caí no chão e vi que minha mão não era mais mão — diz em voz baixa e tom calmo.
Depois da explosão, corridas, torniquete e hospital. Lá, deitado na sala de cirurgia—uma para vários pacientes para economizar a eletricidade do gerador que permite que o centro continue funcionando em uma cidade transformada em escombros e sem suprimentos básicos — ele viu uma mulher grávida com um pé amputado sendo carregada com uma ferida aberta na barriga.
— Não havia mais bebê. As enfermeiras comentaram que aviões russos bombardearam dois hospitais. Um, a maternidade de Mariupol, no dia 9 de março —diz Sergei.
É o 24ºdia da guerra do presidente russo, Vladimir Putin, contra a Ucrânia, e a família Zozulya não tem mais casa. Sergei nem sabe se vai conseguir manter a mão. Seu braço direito está em uma tipoia com um curativo apertado que já viu dias melhores e precisa urgentemente de uma lavagem. Mas o homem de 47 anos, sua mulher, Oksana, e os dois filhos estão vivos e escaparam do horror. Fugiram de Mariupol, cidade transformada em ruínas fumegantes.
Eles não sabem quanto tempo a guerra vai durar, mas pela primeira vez em semanas puderam esticar as pernas ao ar livre por mais de cinco minutos sem terem que correr para se amontoar no porão por causa do bombardeio. Mesmo que seja no estacionamento de um centro comercial em Zaporíjia, cidade ainda não muito atacada, transformado em abrigo para atender aos deslocados pela invasão russa.
São ucranianos vindos especialmente de Mariupol, de onde se estima que pouco menos de 40 mil pessoas escaparam, segundo as autoridades. Pessoas que perderam quase tudo.
RUSSOS CHECAVAM TATUAGENS
Os Zozulya deixaram Mariupol na sexta-feira, quando um bombardeio atingiu seu prédio, derrubou o terceiro e o quarto andares e as chamas começaram a devorar o resto.
— Nós estávamos morando no porão com nossos vizinhos por semanas porque os bombardeios e tiros eram constantes — conta Oksana, de 43 anos.
Alexei, um programador de 27 anos que acaba de chegar ao abrigo em Zaporíjia com a mulher, a sogra e o filho de 4 anos, narra ponto aponto seu inferno. Desde o dia em que Putin lançou a invasão e ele tinha uma entrevista de emprego que nunca aconteceu. Quando uma bomba destruiu o apartamento de sua sogra, Viktoria. Quando perdeu o contato com amigos com um carro que deveria pegar a ele e Tatiana, de 26 anos. Quando eles colocaram todas as suas coisas em algumas malas e saíram do apartamento para nunca mais voltar. Primeiro, no veículo de alguns conhecidos. Então pegando carona. Quando lavaram o rosto e as mãos, depois de três semanas.
— Deixamos tudo para trás. Todas as nossas memórias. As fotografias. Não sobrou nada de Mariupol. Tudo virou pó —lamenta.
Danilo Yevmanchuk e Valeria Moscovtsova fugiram do inferno a pé. Eles colocaram o que puderam em três malas e começaram a correr. Estavam sem água, sem eletricidade e sem aquecimento havia 22 dias. Caminharam mais de cinco quilômetros de um abrigo em Mariupol até que um carro com outras pessoas em fuga os parou. Sete lotaram o veículo para uma cidade próxima e de lá pegaram carona para outro ponto. Passando por postos de controle russos nos quais os soldados de Putin checavam seus celulares em busca de algum tipo de pista, e revistavam pescoço, braços, ombros, joelhos, procurando tatuagens do “tipo nacionalista”, diz Danilo. Depois, outro carro. Outra ajuda. E mais um. Chegaram ao indescritível centro comercial de Zaporíjia, onde móveis de jardim bucólicos, ainda com preços, e os anúncios de ofertas de iogurtes e colchas contrastam com os rostos cansados e angustiados de dezenas de pessoas que tentam agora decidir o que fazer com o que resta de sua vidas.
AVÓS DEIXADOS PARA TRÁS
Danilo e Valéria, de 25 e 23 anos, respectivamente, estão fugindo há semanas. Primeiro, um projétil atingiu o prédio e eles se mudaram para o porão. Mais tarde, preocupados com os avós, que mal podiam sair para pegar água e esquentar comida, eles se mudaram para o apartamento deles.
— Ali ainda vivíamos como gente normal, como gente, dormíamos com colchões no chão, até de pijama. Então tudo virou um inferno. Aviões começaram a sobrevoar nossa área. Para atirar. E tivemos que descer para o porão — conta Valéria.
Danilo diz que eles foram embora deixando a família para trás. Avós, octogenários, não tinham escolha.
— Quase não havia água. Eles sabiam que, se ficássemos, provavelmente todos morreríamos — lamenta a jovem.