Valor Econômico, v. 23. n. 5686, 8/02/2023, Brasil, A2
Os planos da gestão Tarcísio para a vacinação
Gabriel Caprioli

 

Em meados de janeiro, completaram dois anos desde que a primeira vacina contra a covid-19 foi aplicada no braço da primeira brasileira, a enfermeira paulista Monica Calazans. O evento, transmitido ao vivo, refletiu a importância do ato. Primeiro porque era aguardado com apreensão pela população, e segundo porque representava um movimento determinante em um dos principais teatros da batalha política - e ideológica - entre o então governo de João Doria e o de Jair Bolsonaro. 

Passada a fase aguda da pandemia, a imunização dos paulistas, agora a cargo do governador Tarcísio de Freitas, ex-ministro de Bolsonaro, segue se impondo como um dos desafios na saúde do Estado. Como no resto do país, as coberturas vacinais do calendário de rotina estão abaixo do considerado adequado (90% a 95% do público-alvo) e doenças “do passado” voltam a assombrar pais e crianças. Para desatar esse nó, Tarcísio escolheu o médico Eleuses Paiva, ex-deputado federal e ex-vice-prefeito de São José do Rio Preto, para chefiar a Secretaria de Saúde. 

Eleuses Paiva chama atenção para o risco de retorno da pólio 

À coluna Paiva - atualmente filiado ao PSD de Gilberto Kassab - diz que a nova gestão vai atuar junto às creches e escolas municipais e estaduais, aproveitando as matrículas nas unidades educacionais para acompanhar o cenário. Também pretende nos primeiros cem dias de gestão iniciar a campanha de vacinação em municípios cuja cobertura esteja mais baixa ou precisem de atenção para depois estender para todo o Estado. Atualmente, detalha o secretário, 199 municípios paulistas são considerados de alto risco para reintrodução de poliomielite e sarampo, considerando ocorrência de surtos, vulnerabilidade social, portos e aeroportos, presença de refugiados e cobertura da estratégia de saúde da família. 

O secretário chama a atenção para uma preocupação específica em relação à pólio, erradicada em território nacional, mas que apresenta risco de retorno, devido às baixas coberturas no Brasil. Em São Paulo, a imunização contra a doença atingiu 75,7% em 2022. Paiva ressalta, no entanto, que a adesão à vacinação tem caído desde 2015, o que, em sua avaliação, mostra que é preciso fortalecer a conscientização sobre a segurança, qualidade de vida e longevidade que a imunização pode garantir. 

Questionado sobre se pretende manter a obrigatoriedade da vacinação para crianças e jovens, Paiva evita ser categórico e afirma que a gestão vai priorizar a conscientização. “A política de prevenção de doenças será prioridade. Iremos atuar fortemente para reforçar a cobertura vacinal da população no Estado. É imprescindível mostrarmos para as pessoas que as doenças ainda existem e que a vacinação é o único caminho de prevenção”, diz. 

O secretário ecoa, dessa forma, a visão de Tarcísio sobre o tema. Durante a campanha eleitoral, o governador se disse contrário à obrigatoriedade e defendeu a “liberdade que cada cidadão tem de escolher”. Vale lembrar que uma lei estadual de São Paulo determina aos pais a apresentação da carteira de vacinação das crianças no ato da matrícula. Os alunos podem frequentar as aulas sem o esquema completo, mas as escolas devem notificar os conselhos tutelares. 

Em relação à covid-19, o secretário - que durante a pandemia foi a favor das máscaras e da vacina - lembra que o Estado esteve alinhado às decisões do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e “portanto, a campanha de vacinação manterá as indicações da União”. O Ministério da Saúde divulgou há alguns dias que deve começar a distribuir no fim de fevereiro a vacina bivalente - que protege contra a cepa original e as variantes da ômicron. 

O desafio segue enorme: segundo o Vacinômetro do governo paulista (dados até 6 de fevereiro), 5,54% do público adulto ainda não tomou a segunda dose. A proporção dos que não tomaram a dose de reforço pula para 23,70% - no pequeno município de Novais, essa fatia quase bate nos 50%. Entre as crianças de 3 a 11 anos, pouco mais de 53% tomaram as duas primeiras doses. 

O Instituto Butantan (IB), que ganhou destaque na fase crítica da pandemia (e até funk próprio na voz de MC Fioti), continuará sendo estratégico, detalha o secretário. “O IB já retomou as conversas com o Ministério da Saúde para providenciar doses de Coronavac suficientes para suprir as necessidades do programa de imunizações”, destaca, lembrando que o organograma para novas doses está em discussão com o PNI. 

Outros projetos estão no horizonte do Instituto Butantan. “Entre eles, avançar com a vacina contra a dengue, que mostrou resultados muito animadores no estudo fase 3 realizado no Brasil, conduzir o estudo da nova vacina de chikungunya em adolescentes e produzir anticorpos monoclonais”, diz Paiva. “Estes últimos, para tratamento de doenças inflamatórias e neoplasias, como também desenvolver frentes de prevenção e tratamento de doenças infecciosas.” 

Para além da questão das vacinas, a equipe chefiada pelo secretário estuda medidas para reduzir a espera para cirurgias. “Estamos identificando e unificando as filas, que hoje estão descentralizadas, para garantir maior agilidade no atendimento aos pacientes no Estado”, afirma Paiva. Também serão promovidos, diz, mutirões de cirurgias, que serão iniciados pelos procedimentos oncológicos. 

Outra aposta da nova gestão é o que o secretário chama de saúde digital. “A telemedicina, como estratégia de fortalecimento da atenção básica, vai diminuir a demanda de média e alta complexidade, pois poderá antecipar avaliações e diagnósticos de forma ágil e assertiva.” O plano, destaca Paiva, é tornar São Paulo “um polo de referência da saúde digital, para elevar o sistema de saúde a um novo patamar de acesso, resolutividade, gestão, sustentabilidade e qualidade de vida”. 

A despeito das diferenças entre a orientação política dos governos paulista e federal, Paiva se diz aberto ao diálogo e trabalho em conjunto com municípios e União. “Não se trata de questão partidária ou sobre figuras específicas, mas sim a busca de uma ação conjunta para o pleno funcionamento do poder público. É com este pensamento que iremos atuar para o fortalecimento do SUS”, diz. 

Que o secretário tenha sucesso e as disputas ideológicas à custa da saúde das pessoas fiquem definitivamente no passado.