O Globo, n 32.369, 22/03/2022. Política, p. 04

DOBRANDO A APOSTA

Alice Cravo e Daniel Gullino


Bolsonaro contraria Centrão, insiste em vice militar e escala Braga Netto

O presidente Jair Bolsonaro deu ontem o sinal mais claro até agora de que deve ter o ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, como candidato a vice-presidente na disputa eleitoral. Se confirmada, a escolha significará uma demonstração de força de Bolsonaro em relação a parte do seu núcleo de campanha, que defendia um nome de perfil mais político. Um dos principais líderes do Centrão, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, o partido do titular do Planalto, vinha citando nos bastidores o nome da ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Bolsonaro afirmou ontem que o vice escolhido é de Belo Horizonte, estudou em colégio militar e que a decisão ficará evidente com a reforma ministerial, programada para ocorrer na próxima semana. Braga Netto é o único ministro nascido na capital mineira.

Os ministros que desejarem concorrer na eleição precisam deixar os cargos até 2 de abril — seis meses antes do primeiro turno da disputa. Bolsonaro definiu que as saídas devem ocorrer dois dias antes, em 31 de março. A expectativa é que Braga Netto deixe o cargo para ficar à disposição do presidente, apesar de o registro da candidatura só ocorrer em agosto.

Em entrevista à rádio “Jovem Pan”, Bolsonaro disse que o vice deve ajudar a governar, e não a ganhar a eleição. Segundo o presidente, o companheiro de chapa não pode ter “ambições” de tomar o seu lugar.

—Devemos ter um vice que demonstre à população que é um vice que não é para ajudar a ganhar a eleição, é para ajudar a governar o Brasil — disse, acrescentando: — Eu tenho que ter um vice que não tenha ambições de assumir a minha cadeira ao longo de um mandato. Eu posso adiantar para vocês, hoje em dia o vice é de Minas Gerais.

As declarações coincidem com uma das razões que auxiliares de Bolsonaro apontam para a escolha de Braga Netto: a avaliação de que um vice militar (como o atual, Hamilton Mourão) ajuda a evitar um processo de impeachment, porque haveria uma resistência de parlamentares a entregar o governo a um integrante das Forças Armadas. Braga Netto é general da reserva.

Além disso, pesou na avaliação do presidente o perfil discreto de Braga Netto, avesso a entrevistas e declarações públicas, bem diferente de Mourão.

Auxiliares de Bolsonaro também citam que o presidente valoriza a fidelidade de Braga Netto, considerado um “cumpridor de missões” no Palácio do Planalto. Quando foi ministro da Casa Civil, coube ao general organizar a reação do governo à pandemia de Covid-19, esvaziando as funções do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que mais tarde se tornaria desafeto do governo. Depois, já na Defesa, Braga Netto liderou uma reação inédita dos comandantes das Forças Armadas à CPI da Covid, articulando uma nota em repúdio a uma declaração do senador Omar Aziz (PSDAM) crítica aos militares.

FILIAÇÃO AO PL

Para ser confirmado como vice, além de deixar o governo, Braga Netto terá de se filiar a um partido político até o fim do mês. De acordo com a colunista BelaMegale, do GLOBO, a expectativa dentro do governo é que ele siga a trilha de Bolsonaro e vá para o PL.

Parte dos aliados defendia um nome que pudesse agregar mais votos à chapa. Para Valdemar Costa Neto, a ministra Tereza Cristina ajudaria a reduzir a rejeição de Bolsonaro entre o público feminino — 58% das mulheres reprovam o presidente, índice que é de 51% entre os homens, segundo o Ipec. A ministra, no entanto, deve se candidatar ao Senado pelo Mato Grosso do Sul. Vice-presidente do PL, o deputado Capitão Augusto (SP) afirmou não ver problema na opção de um general como vice.

—Os votos são do presidente Bolsonaro. Quem gosta já vai votar de qualquer jeito e quem não gosta não vai mudar o voto por causa do vice. O vice não interfere em nada nas pesquisas e na campanha. Se ele se sente mais confortável, não vejo nenhum problema — afirmou o parlamentar.

No Republicanos, que ainda não definiu se apoiará a reeleição de Bolsonaro, a avaliação é de que a escolha do vice não vai influenciar a decisão do partido.

— Não tem nada a ver. Se for o Braga Netto, achamos que ele deve ir para o PL. Sendo escolha do presidente, melhor ficar no mesmo partido —disse o presidente da sigla, Marcos Pereira, que tem reclamado da filiação em peso de bolsonaristas ao partido do presidente.