O Globo, n 32.369, 22/03/2022. Economia, p. 12
Bancos preveem queda de até 12% do PIB da Rússia
Barclays e Goldman Sachs pioram projeções para o desempenho da economia russa este ano. País evitou calote da dívida externa semana passada, mas ainda precisa pagar US$ 4,6 bi este ano, o que pode se tornar mais difícil com sanções do Ocidente
Economistas do Barclays e do Goldman Sachs revisaram as previsões para o crescimento da economia russa este ano, estimando retração de dois dígitos na mais recente de uma série de revisões que vão se aprofundando em paralelo ao endurecimento das sanções impostas ao país após a invasão da Ucrânia.
O Barclays divulgou um dos maiores rebaixamentos de expectativa para o Produto Interno Bruto( PIB) da Rússia até aqui. O banco espera uma contração de 12,4% este ano, com um declínio de 3,5% no ano seguinte.
O Goldman Sachs reduziu a previsão para este ano e agora calcula tombo de 10%, ante queda de 7% anteriormente.
“Devido às condições geopolíticas atuais, acreditamos que as sanções serão de longo prazo”, disseram economistas do Barclays, em nota, incluindo Brahim Razgallah. “A desaceleração econômica será gradual e vai ficar mais rápida em meados de 2022, na medida em que as consequências das sanções sejam integralmente aplicadas à economia”, complementam.
Pouco mais de três semanas após o presidente Vladimir Putin ordenar o ataque militar à Ucrânia, uma economia que caminhava para o segundo ano de crescimento está naufragando em meio a seu pior revés neste século.
Putin alerta que o país enfrenta aumento na taxa de desemprego e na inflação enquanto ajusta o país para enfrentar o que ele classifica como uma“Blitzk rieg econômica ”, espécie de ataque relâmpago à economia russa, trazido pelas sanções.
A previsão inicial da Bloomberg Economics era de que o PIB da Rússia encolheria cerca de 9% este ano.
Os economistas do Goldman, liderados por Clemens Grafe, disseram em comunicado que “as exportações russas estão mais fortemente interrompidas do que se previa inicialmente”, o que responde por cerca de metade da revisão para baixo anunciada pelo banco.
A tese do Goldman é que as exportações de gás russas vão continuar sem interrupção, mas os embarques de petróleo vão cair perto de 20%.
E agora estima que as exportações despenquem em 20% no segundo trimestre, com queda de 10% no total do ano.
O Goldman considera que haverá igualmente um tombo de 20% nas importações por Moscou em 2022. Os itens exportados pela Rússia dependem de poucos componentes do exterior, segundo o banco. No caso da mineração, o setor depende de importados para apenas 7% de compras intermediárias em produtos e serviços, citando o dado mais recente, de 2019.
“O impacto das sanções comerciais a Moscou devem ser menos prejudiciais para a economia (russa) do que seriam para outras mais integradas à rede global de suprimentos”, diz o Goldman.
O banco americano estima “lenta recuperação”, com crescimento voltando ao positivo no próximo ano, com previsão de expansão do PIB de 2,4% em 2023 e de 3,4% em 2024.
A previsão é menos impactante para as finanças da Rússia. Na ausência de restrições comerciais maiores e com a alta no preço das commodities, o Barclays acredita que a Rússia terá condições de bancar suas principais despesas.
INCERTEZA NO MERCADO
Mas o crescimento do PIB não é a única preocupação no horizonte. Na semana passada, o país conseguiu evitar o primeiro calote de sua dívida externa ao enviar US$ 117 milhões a detentores de dívida estrangeiros. Os recursos foram processados pelo JPMorgan, que pediu autorização ao governo americano.
Entretanto, o perigo está longe do fim. A Rússia enfrenta uma série de prazos de pagamentos relacionados aos seus cerca de US$ 40 bilhões em valor de títulos estrangeiros. Ela deve pagar até US$ 4,6 bilhões este ano. Mas pagar os detentores de títulos pode se tornar uma tarefa ainda mais complexa conforme o Ocidente endurece as sanções contra o país.
Neste mês, o país ainda deve pagar US$ 615 milhões em juros referentes aos títulos. No começo de abril, precisa quitar US$ 2 bilhões referentes ao vencimento de um dos papéis. A incerteza deve prender a atenção do mercado.