O Globo, n 32.369, 22/03/2022. Economia, p. 11

DÓLAR FICA ABAIXO DE R$ 5

Vitor da Costa


“Commodities” e juros altos levam moeda a R$ 4,944

O dólar comercial encerrou ontem abaixo dos R$ 5 pela primeira vez desde junho do ano passado, enquanto a Bolsa avançou. Ambos se beneficiaram da valorização de commodities como petróleo e minério de ferro. No câmbio, influenciam ainda os juros altos e a forte entrada de recursos externos.

A moeda americana recuou 1,43%, a R$ 4,9440. É a menor cotação em nove meses, desde 29 de junho de 2021, quando encerrou a R$ 4,9419. No ano, o dólar acumula queda de 11,32%.

O Ibovespa, por sua vez, subiu 0,73%, aos 116.155 pontos. É o maior patamar desde 13 de setembro de 2021 (116.404 pontos). No acumulado do ano, a alta é de 10,81%.

Hideaki Iha, operador de câmbio da Fair Corretora, lembra que o Brasil é produtor de commodities, em alta por causa da guerra na Ucrânia. E ressalta que os juros também têm ajudado. Na semana passada, o Banco Central (BC) elevou a Taxa Selic para 11,75% ao ano.

EFEITO RÚSSIA

Desde o início do ano, o real já mostra um desempenho positivo. O Brasil vem se beneficiando de uma rotação de carteira dos investidores internacionais, que têm procurado papéis de “valor”, como são conhecidas as empresas com histórico mais consolidado, entre elas as de commodities e bancos, setores com forte peso no índice brasileiro.

Os papéis da Petrobras avançaram 3,35% (ordinários, ON, com direito a voto) e 3,76% (preferenciais, PN, sem voto), acompanhando o salto de mais de 7% nos preços do petróleo. O barril do tipo Brent foi a US$ 115,62. Já as ações ON da Vale avançaram 2,83%, e as da CSN, 2,57%. Os papéis PN da Usiminas subiram 0,34%.

Já as ações PN de Itaú (ITUB4) e Bradesco tiveram alta de 2,47% e 2,37%, respectivamente.

A rotação ocorre pela perspectiva de juros maiores nos Estados Unidos, o que prejudica papéis de “crescimento”, como são chamadas as companhias que projetam expansão futura, mais afetadas pela alta nos juros. O Federal Reserve (Fed, o BC americano) elevou na semana passada sua taxa básica em 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 0,25% e 0,5%.

Esse movimento ajuda a trazer mais dólares para o Brasil, o que contribui para a queda da moeda americana. Até 17 de março, o fluxo estrangeiro no segmento secundário da B3, aquele com ações já listadas, estava positivo em R$ 75,2 bilhões.

—O Brasil continua atraindo investimentos, principalmente, por causa das grandes empresas exportadoras. E capturamos grande parte do fluxo que iria para a Rússia. Assim como as empresas, os investidores também procuram sair do país e, com a Rússia sendo excluída de outros índices dos emergentes, os outros países acabam ganhando proporcionalmente —disse o head de Renda Variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno.

RISCO DO BC AMERICANO

A Rússia também é forte em commodities, mas, depois de invadir a Ucrânia, tornou-se alvo de sanções econômicas, e muitas empresas têm suspendido voluntariamente seus negócios com o Kremlin.

Iha, da Fair, acredita que, nas próximas semanas, o real ainda deve se valorizar. Ele avalia que esse movimento deve se manter enquanto perdurar a guerra. Apesar de o conflito pressionar a inflação em todo o mundo, ele torna o Brasil mais atraente frente a seus pares emergentes.

E, mesmo com o Fed elevando os juros nos EUA, eles ainda são bem mais elevados no Brasil. Esse diferencial estimula a prática chamada de carry trade, que consiste em tomar o dinheiro em países onde as taxas são baixas e investir em outros que têm juro maior e que trazem, portanto, mais rentabilidade.

— No curto prazo, enquanto as commodities estiverem nesse patamar e o fluxo entrando, isso favorece o real —disse Iha.

Ele, porém, vê o dólar acima dos R$ 5 no fim do ano.

Jogam contra o real os riscos fiscais e uma alta de juros maior pelo Fed. O presidente do BC americano, Jerome Powell, afirmou ontem que o banco pode elevar juros acima do previsto, “se isso for necessário para restaurar a estabilidade de preços.”