Valor Econômico, v. 23. n. 5686, 8/02/2023, Finanças, C1
Desancoragem de expectativas de inflação preocupa Copom
Larissa Garcia e Alex Ribeiro
Embora tenha expressado preocupação em relação à deterioração das expectativas de inflação em horizontes mais longos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central “reconhece” que a execução do pacote fiscal anunciado pelo Ministério da Fazenda atenuaria os estímulos sobre a demanda, reduzindo o risco de alta sobre os preços.
A discussão foi levantada por alguns membros do colegiado, segundo a ata da reunião realizada na última quarta-feira. Eles ponderam que, enquanto o Copom usa um déficit maior, com base na previsão aprovada no Orçamento de 2023, os analistas privados projetam resultado “sensivelmente” menor, já que incorporaram as medidas anunciadas pela pasta. Segundo o documento, contudo, o BC optou por manter sua “governança usual” de incluir apenas políticas já aprovadas em lei.
Na semana passada, o Copom decidiu manter a taxa básica Selic em 13,75% ao ano e intensificou os alertas sobre os impactos do risco fiscal para a inflação. Na ocasião, a autoridade monetária sinalizou que pretende postergar ainda mais o início dos cortes de juros. Desde então, a autoridade monetária tem sofrido duras críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de aliados.
“Em primeiro lugar, a revisão do arcabouço fiscal diminui a visibilidade sobre as contas públicas para os próximos anos e introduz prêmios nos preços de ativos e impacta as expectativas de inflação”, frisou a ata. “Em segundo lugar, no que tange aos estímulos fiscais, o Copom seguirá acompanhando seus impactos sobre atividade e inflação e reforça que, em ambiente de hiato do produto reduzido, os impactos sobre a inflação tendem a se sobrepor aos impactos almejados sobre a atividade.”
Novamente, a ata detalhou que alguns membros “notaram” que a execução do pacote apresentado pelo Ministério da Fazenda deveria atenuar o risco fiscal e que será importante “acompanhar os desafios na sua implementação”.
Além da política fiscal expansionista, a ata citou outros fatores que podem ter pesado nas expectativas de inflação do mercado, como uma possível “percepção de leniência” do BC com as metas estipuladas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e a possibilidade de alteração das metas de inflação já definidas.
O CMN já definiu as metas até 2025, mas o presidente Lula tem dado declarações que alimentam especulações sobre uma revisão para cima dos objetivos, que atualmente estão em 3,25% para 2023 e 3% para 2024 e 2025. Antes das críticas do petista, os agentes econômicos esperavam que o percentual ficasse estacionado em 3% nos anos seguintes.
Dessa forma, as expectativas de inflação captadas pelo Focus, levantamento semanal feito com analistas de instituições financeiras e casas de análise, se elevaram nas últimas semanas, inclusive para 2026, que ainda não tem uma meta definida.
Segundo o BC, a política monetária é a “variável de ajuste macroeconômico” utilizada para mitigar os efeitos “porventura inflacionários” da política fiscal. Sobre os estímulos de demanda, o comitê afirmou que devem ser avaliados “considerando o estágio do ciclo econômico e o grau de ociosidade na economia”.
Em relação à possível leniência, o Copom respondeu que reafirma seu compromisso “em conduzir a política monetária para atingir as metas estabelecidas” e avaliou que “uma vez observada a desancoragem”, é necessário se manter mais atento para reduzir o custo futuro da desinflação, que na prática significa menos aperto monetário.
O BC disse, ainda, que conduz a política monetária “com base nas metas estipuladas pelo Conselho Monetário Nacional”. “Em resumo, mais importante do que a análise das motivações para a elevação das expectativas, o Comitê enfatiza que irá atuar para garantir que a inflação convirja para as metas.”
“Além do impacto direto que a elevação das expectativas tem sobre as projeções de inflação, o aumento das expectativas de longo prazo eleva o custo da desinflação ao exigir maior participação de outros canais da política monetária e, consequentemente, uma abertura do hiato do produto maior para se obter uma mesma queda de inflação”, diz o documento. O comitê reforçou que “seguirá atento e perseverará até que a ancoragem das expectativas se consolide”.
A ata também trouxe divergências em relação à taxa neutra de juros. Segundo o documento, o Copom optou, no momento, por manter a taxa neutra em 4%, embora alguns membros tenham levantado a hipótese de ela poder estar mais alta. O colegiado avaliou cenários alternativos e identificou que os impactos de elevação da taxa neutra sobre suas projeções de inflação “crescem no tempo” e passam a ser mais relevantes a partir do segundo semestre de 2024.
Além dos riscos fiscais, o Copom mantém atenção na inflação de serviços, que tem “apresentado moderação”, mas segue em nível incompatível com a meta. Além disso, o BC destacou que continua monitorando a dinâmica do mercado de trabalho, que já apresentou desaceleração, e o hiato do produto, que mede o nível de ociosidade da economia.
No ambiente internacional, o BC destacou que o cenário para o crescimento se mostra “um pouco menos desafiador” com a mudança na política de combate à covid-19 na China e com o inverno mais ameno na Europa, mas que os dados de atividade e mercado de trabalho seguem “relativamente resilientes” nos EUA. Para o BC, as pressões inflacionárias globais se atenuaram, mas ainda há incertezas.