Valor Econômico, v. 23. n. 5686, 8/02/2023, Finanças, C2
Juros e câmbio voltam a ser pressionados
Victor Rezende, Gabriel Roca, Matheus Prado, Arthur Cagliari e Larissa Garcia
Embora tenha mantido um tom conservador, especialmente ao se referir ao processo de desancoragem das expectativas de inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central ajudou a dar algum alívio aos negócios no início do dia ao comentar sobre o pacote de medidas do Ministério da Fazenda. O tom positivo nos mercados domésticos, porém, não durou muito. Ao longo do dia, novas e duras críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Banco Central pesaram no sentimento dos agentes, o que resultou em alta do dólar e dos juros de longo prazo e queda do Ibovespa.
O dólar fechou em alta de 0,51%, cotado a R$ 5,199, enquanto o Ibovespa teve baixa de 0,82%, aos 107.830 pontos. No mercado de juros, a taxa do DI para janeiro de 2027 subiu de 13,065% a 13,195%; e a do DI para janeiro de 2031 passou de 13,28% para 13,49%.
Novas declarações de Lula aumentaram o desconforto entre os agentes financeiros. Ontem, ele afirmou que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, “deve explicações ao Congresso” pelo nível elevado da taxa de juros. Na semana passada, o Copom manteve o juro básico inalterado em 13,75% e adotou uma comunicação ainda mais dura, na tentativa de combater o processo de descolamento das expectativas de inflação em relação às metas.
“Dado que o BC é autônomo e o Poder Executivo não tem uma gestão direta sobre a política monetária, é natural alguma pressão, mas acho que, no nosso caso específico, o nível de questionamento ficou muito elevado”, observa o economista-chefe da Occam, Paulo Val. “Estamos iniciando uma discussão concreta sobre alteração das metas de inflação. É um nível de tensão maior que o desejável. Ficou bastante improvável não haver uma alteração das metas. Só não sei se vai ser 4% ou 4,5%, mas parece que uma meta mais alta virou o cenário mais provável.”
O cenário básico da Occam abarca uma Selic estacionada nos atuais 13,75% ao menos até o fim deste ano. “O diagnóstico do BC é o de que, realmente, a taxa de juros vai ter que ficar estável por mais tempo para atingir o objetivo. E, ao longo do tempo, o BC vai reavaliar se isso é suficiente para fazer a convergência da inflação”, diz Val.
O mercado, porém, continua a enxergar um cenário de desinflação bastante desafiador. Diante das duras críticas feitas por Lula ao BC e aos questionamentos sobre o nível atual das metas de inflação, as expectativas de inflação de mercado se distanciaram ainda mais das metas. A inflação “implícita” extraída da NTN-B com vencimento em agosto de 2030 subiu de 6,52% na segunda-feira para 6,61% ontem, enquanto a inflação embutida na NTN-B para maio de 2055 saltou de 6,55% para 6,66%.
Para os economistas Elizabeth Johnson e Wilson Ferrarezi, da TS Lombard, os frequentes ataques de Lula ao BC são parte da estratégia do petista para culpar o governo anterior pela lenta recuperação econômica esperada para este ano. “Isso não é novidade para Lula, que em seus dois primeiros mandatos repetidamente culpou a ‘herança maldita’ do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por todas as falhas de seu governo”, dizem os profissionais em relatório.
“Ao culpar o presidente do BC, Campos Neto - e, por extensão, o ex-presidente Bolsonaro -, pela economia fraca, Lula quer justificar preventivamente a lenta recuperação esperada para este ano. Infelizmente, suas declarações são contraproducentes e têm o potencial de contribuir para uma desancoragem das expectativas de inflação, métrica-chave monitorada pelo BC”, apontam os economistas.
Um ex-diretor do BC, que preferiu não se identificar, ressaltou que Campos tinha uma relação próxima ao governo Bolsonaro mesmo depois da aprovação da autonomia, o que trouxe custos para a relação com a gestão atual e ruídos em torno da independência de fato da autarquia.
“Ele cultivou a impressão de um presidente do BC excessivamente próximo do governo e conseguiu aprovar a autonomia porque tinha essa proximidade e confiança, mas continuou próximo mesmo depois”, comentou. O ex-dirigente lembrou, ainda, que Campos estava, até pouco tempo atrás, em grupo de WhatsApp de ministros do governo Bolsonaro.
Nem mesmo a manutenção do tom conservador utilizado pelo Copom, na ata da reunião da semana passada, foi capaz de impedir uma nova rodada de deterioração das perspectivas inflacionárias. Além disso, como notam participantes do mercado, o comitê fez acenos ao Ministério da Fazenda, o que ajudou a deixar o ambiente menos tenso, mesmo que momentaneamente. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou a ata como “mais amigável”.
Para o economista Flávio Serrano, da BlueLine Asset, as indicações trazidas na ata do Copom reforçam a perspectiva emitida no comunicado da decisão de que as taxas de juros devem mesmo permanecer em 13,75% por um período maior de tempo. A gestora, inclusive, adiou sua perspectiva para o início do ciclo de corte dos juros de setembro para outubro e, assim, para a BlueLine, a Selic deve encerrar o ano em 13%, e não mais em 12,5%.
“O BC sinaliza que só haverá espaço para cortes de juros se houver convergência da inflação no horizonte relevante e também nos prazos mais longos”, avalia Serrano. O ambiente ruidoso, com incertezas fiscais e discussões sobre a meta de inflação, cria ainda mais dificuldades para a autoridade monetária. “Nós caminhávamos para um cenário em que provavelmente haveria cortes de juros ao longo de 2023. A mudança de percepção do risco fiscal e a deterioração das expectativas acabam limitando esses processos”, aponta o economista.
O cenário base da Armor Capital também aponta para a Selic em 13% em dezembro, em um ambiente que dependerá da credibilidade do novo arcabouço fiscal.
“Acredito que a Fazenda tem sinalizado que fará algo minimamente razoável. Supondo isso, acho que dá para cortar juros no fim do ano”, defende a economista-chefe da casa, Andrea Damico. “Cortes de juros neste ano configuram um cenário possível e provável, mas óbvio que depende muito da qualidade da nova regra fiscal.”
Além das críticas ao BC, Lula também questionou a privatização da Eletrobras e disse que a AGU pode contestar o contrato na Justiça. Os reflexos das declarações do presidente nas ações da companhia foram imediatos: Eletrobras ON recuou 3,51% e a PNB perdeu 3,43%.
“Lula tem tido sorte ou está perdendo uma grande oportunidade, porque o cenário global está ajudando muito. O Brasil poderia estar surfando a reabertura da China e o olhar otimista dos investidores globais para emergentes, mas essas declarações cada vez mais ideológicas e combativas atrapalham”, afirma Thalles Franco, sócio e gestor da RPS Capital.