O Globo, n 32.370, 23/03/2022. Economia, p. 18
Copom sinaliza fim do ciclo de alta dos juros em maio, a 12,75%
Gabriel Shinohara
Ata da última reunião, no entanto, deixa claro que aperto monetário pode ser maior se cenário externo se agravar
O ciclo de alta da taxa básica de juros (Selic) está perto do fim, de acordo com o Banco Central (BC). A Selic passou de 2%, no início de 2021, para 11,75% ao ano na semana passada. Segundo a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que elevou a taxa em 1 ponto percentual, o BC avalia que uma Selic em 12,75% seria suficiente para colocar a inflação de 2023 na meta. O risco vem do conflito na Ucrânia.
O documento ressalta que as projeções para a inflação “se encontram acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta para 2022, e ainda ao redor da meta para 2023.” Como o Copom já indicou que deve fazer uma nova elevação de 1 p.p. na próxima reunião, em maio, a Selic estaria próxima do patamar suficiente para controlar a inflação no ano que vem.
As alterações na Selic demoram de seis a nove meses para ter impacto na inflação. Ou seja, o BC já está mirando o IPCA de 2023.
“A trajetória de juros projetada implica patamar significativamente contracionista da política monetária, que tem impacto principalmente na inflação de 2023, é compatível com o combate aos efeitos de segunda ordem do atual choque de oferta”, diz a ata.
Com mais uma alta de 1 p.p., a Selic iria a 12,75%. O último Relatório Focus, porém, prevê a taxa em 13% no fim do ano.
CHOQUE DE ‘COMMODITIES’
Apesar de indicar que o fim do ciclo está próximo, o BC não descartou a possibilidade de elevar ainda mais os juros, caso necessário.
“O Copom avalia que o momento exige serenidade para avaliação da extensão e duração dos atuais choques” — uma referência à invasão da Ucrânia pela Rússia, que provocou forte alta nos preços das commodities, de petróleo a grãos. “Caso esses (choques) se provem mais persistentes ou maiores que o antecipado, o Comitê estará pronto para ajustar o tamanho do ciclo de aperto monetário.”
A economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto, aposta que será necessária mais uma alta, com os juros chegando a 13,25% em junho:
— Acredito que o BC vai se apoiar na porta aberta que deixou para caso o cenário seja um pouco mais pessimista. Caso a gente tenha uma hipótese de trajetória mais agressiva dos preços de petróleo, ele pode rever e dar continuidade ao reajuste.
Mauricio Oreng, superintendente de pesquisa macroeconômica do Santander, também avalia que a Selic encerrará seu ciclo de altas em 13,25%. Ele ressalta que as expectativas de inflação devem continuar subindo e que ainda há muita incerteza por causa da guerra.
Segundo a ata, o cenário externo “se deteriorou substancialmente”. Na avaliação do Comitê, o choque de oferta causado pelo conflito, como nos combustíveis e alimentos, tem potencial para “exacerbar pressões inflacionárias” no mundo todo.
— Embora reconheça que possa haver uma pressão sobre bens industrializados em função das mudanças na cadeia de produção global, o impacto principal é através das commodities, e nesse sentido o Banco Central se coloca como responsável de conter os efeitos secundários do choque —disse Oreng, do Santander.
ATENÇÃO AO PETRÓLEO
A ata cita ainda o risco fiscal, no cenário interno. Mas afirma que “esse risco está parcialmente incorporado nas expectativas de inflação”.
Para a inflação, o Copom projeta dois cenários, um no qual o IPCA chegaria a 7,1% este ano e a 3,4% em 2023, e outro, mais provável, segundo o Comitê, de inflação em 6,3% em 2022 e 3,1% no ano que vem. O determinante é o preço do petróleo, atualmente em torno de US$ 115.
A meta deste ano é de 3,5%, e a de 2023, de 3,25%, com intervalo de tolerância de 1,5 p.p. para cima ou para baixo.
Uma inflação mais alta levaria a uma Selic também maior. Em fevereiro, antes de estourar a guerra, o Copom projetava o pico de 11,75% este ano, estimativa que foi a 12,75% na semana passada.