O Globo, n 32.370, 23/03/2022. Política, p. 08

Número de jornalistas atacados cresceu 21% em 2021

André de Souza


De acordo com a Abert, foram 145 casos registrados no ano passado, entre agressões físicas, ameaças, intimidações e ofensas; mais da metade das hostilidades envolveram Bolsonaro e apoiadores. Presidente da entidade alerta para risco à democracia


O número de profissionais e veículos de comunicação que sofreram agressões físicas, ameaças, intimidações, ofensas e outros tipos de ataques cresceu 21,6% em 2021 em relação ao ano anterior. De acordo com o relatório “Violações à Liberdade de Expressão”, elaborado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), foram 145 casos registrados no ano passado, uma média de quase três episódios por semana, com 230 vítimas, entre profissionais e empresas de comunicação. Mais da metade dessas hostilidades envolveram o presidente Jair Bolsonaro ou apoiadores, aliados e equipe de segurança do governo.

Durante a apresentação do levantamento, o presidente da Abert, Flávio Lara Resende, destacou que os ataques contra profissionais da informação colocam em risco a democracia:

— Não há dúvidas de que qualquer autoridade que venha a atacar de alguma forma o profissional de imprensa pode guiar centenas de apoiadores. Qualquer mensagem truncada que coloque em dúvida determinado fato tem repercussões inimagináveis, e quem está nas ruas trabalhando, como faz a imprensa, vira alvo de discursos odiosos que levam a agressões físicas, ameaças e intimidações. E todo esse quadro coloca a democracia em risco.

De acordo com o levantamento, o aumento mais expressivo nos casos de violência ocorreu na quantidade de atentados e de ataques ou ações de vandalismos contra empresas de comunicação. Os números dobraram, passando de quatro para oito ocorrências entre 2020 e 2021.

Em metade dos atentados foram usadas armas de fogo. Na maioria das vezes, as vítimas foram atacadas por criminosos não identificados. Dos oito casos registrados, três ocorreram no estado do Rio.

Em relação às agressões, o número de casos teve ligeira redução entre 2020 e 2021, mas a quantidade de profissionais agredidos aumentou. Foram 61 pessoas vítimas de chutes, socos e tapas. Segundo o relatório, manifestantes, policiais ou agentes de segurança e políticos ou ocupantes de cargos públicos foram os principais agressores. Nessa conta, foram incluídas as agressões a jornalistas que faziam a cobertura da viagem presidencial a Roma.

No caso das ofensas, intimidações e ameaças, também houve aumento no número de vítimas. Em 92% das vezes, as ofensas partiram de políticos ou ocupantes de cargos públicos, que também estão entre os principais responsáveis pelas intimidações. No caso das ameaças, as mais comuns foram de morte, mas também houve de agressão e disparo de tiros.

Em parceria com a consultoria Bites, a Abert também fez um levantamento de agressões sofridas por profissionais e veículos de comunicação nas redes sociais. Em 2021, houve uma redução de 54% em relação a 2020, mas ainda assim foram 4 mil ataques virtuais por dia. Ao todo, 1,46 milhão de postagens foram feitas contra a imprensa com palavras de baixo calão, expressões pejorativas e termos depreciativos.

Na avaliação de Manoel Fernandes, da consultoria Bites, a redução do número de ataques virtuais não deverá se repetir em 2022, em razão da eleição presidencial e da “polarização que irá tomar conta do universo digital”, com tentativas de desconstruir a mídia profissional.

O relatório mostrou ainda que, dentre 29 decisões judiciais envolvendo o trabalho jornalístico, 14 foram desfavoráveis à imprensa e 15 favoráveis. A maioria diz respeito ao pagamento de indenizações por danos morais, mas também houve pedidos de retirada de conteúdo do ar e de proibição de citação de nomes em reportagens. Esses números são computados à parte e não integram os 145 casos de ataques.

A Abert também mencionou outro relatório, elaborado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), mostrando que o Brasil entrou em 2021 para a “zona vermelha” do ranking mundial de liberdade de expressão.